
O Banco Central do Brasil e o Banco Central Europeu (BCE) deram início à fase de avaliação sobre a viabilidade de interligar o Pix ao Tips, a plataforma do Eurosistema que liquida pagamentos instantâneos em moeda de banco central. As instituições vão analisar aspectos técnicos, operacionais, jurídicos e de negócio da conexão, de acordo com o BC.
Na nota divulgada, a autoridade monetária avalia que, considerando os significativos fluxos econômicos e financeiros entre o Brasil e a área do euro, a interligação poderá contribuir para pagamentos transfronteiriços mais rápidos, eficientes e de menor custo. Ela permitiria remessas internacionais e compras com os recursos disponíveis em moeda local em poucos segundos.
Turistas brasileiros já conseguem pagar com Pix em estabelecimentos de oito países: Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai, Estados Unidos, Portugal, Espanha e França. A compra é feita por QR Code no aplicativo do banco, com conversão do valor para reais antes da confirmação. O governo federal informa que a modalidade evita o IOF cobrado nas compras internacionais com cartão de crédito. A mesma publicação ressalta, porém, que não existe um “Pix Internacional” oficial do Banco Central. As operações são feitas por empresas autorizadas, que convertem a moeda e fazem o repasse ao comerciante. A conexão em estudo com a Europa seria diferente: uma ligação direta entre as infraestruturas públicas dos dois lados.
Segundo a agência Reuters, um projeto piloto poderia sair em 2028. Do lado brasileiro, nove departamentos do BC foram designados para definir regras de governança e testar a compatibilidade dos sistemas. Nenhuma das duas instituições divulgou oficialmente um cronograma.
O Brasil é um entre vários parceiros em estudo. Pelo documento do BCE de junho, a conexão com o UPI, da Índia, já está em implementação, com piloto previsto para o primeiro semestre de 2027. As ligações com o sistema suíço e com a rede multilateral Nexus, que reúne sistemas asiáticos, estão em fase de exploração. O BCE afirma que essas conexões fazem parte da estratégia do Eurosistema para pagamentos de varejo e do roteiro do G20 para pagamentos internacionais mais rápidos, baratos, transparentes e inclusivos, além de apoiarem o papel internacional do euro.
A escala do sistema brasileiro ajuda a explicar o interesse. O relatório de gestão do Pix, do BC, registra quase 80 bilhões de transações em 2025. No mesmo ano, 148 milhões de pessoas, cerca de 86% da população adulta, e 12,8 milhões de empresas fizeram ou receberam ao menos um Pix. Na média, são mais de 200 milhões de pagamentos por dia, número próximo da metade da população da União Europeia.
Uma fonte ouvida pela DW Brasil classificou a integração como de alta complexidade, por envolver sistemas e jurisdições de blocos econômicos diferentes. O câmbio é um dos temas centrais. Hoje, o Tips liquida pagamentos em euro, coroa sueca e coroa dinamarquesa, e a coroa norueguesa deve entrar em 2028. O real não está entre essas moedas. Regras cambiais, instituições participantes, tarifas e a experiência do usuário ainda dependem da estrutura que for definida.
A controvérsia com os Estados Unidos
O Pix também está no centro de uma disputa comercial. O governo dos EUA classificou o serviço como “injusto” e o incluiu entre as justificativas para novas tarifas sobre o Brasil. Washington questiona o fato de o BC ser ao mesmo tempo regulador do mercado de pagamentos e dono e operador da plataforma. Na sua visão, isso cria conflito de interesses e favorece o sistema brasileiro em relação a concorrentes, entre eles empresas americanas.
O BC rebate o argumento e se descreve como provedor neutro de infraestrutura digital pública, que torna o mercado mais eficiente, inclusivo e competitivo. Como exemplo, cita a entrada de mais de 70 milhões de pessoas no sistema financeiro desde a criação do Pix.
Um comitê de técnicos do BC deve viajar à sede do BCE em outubro.




