
O governo brasileiro intensificou as negociações com a União Europeia para tentar reverter a retirada do país da lista de fornecedores autorizados a exportar produtos de origem animal ao bloco, depois que a Comissão Europeia formalizou, no dia 4 de junho, uma medida anunciada em maio. Sem acordo, a restrição entra em vigor em 3 de setembro.
A decisão está ligada às novas regras europeias de controle do uso de antimicrobianos na produção animal, parte da agenda do bloco contra a resistência antimicrobiana. Segundo Bruxelas, o Brasil não apresentou garantias suficientes de que sua cadeia produtiva cumpre as exigências. A medida atinge carne bovina, de frango e suína, além de ovos, mel, pescado, equinos e tripas destinadas ao consumo humano. O país foi o único do Mercosul retirado da lista por falta de conformidade, enquanto Argentina, Paraguai e Uruguai seguem habilitados.
A resposta brasileira mobilizou o Itamaraty e os ministérios da Agricultura e do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. No dia 6 de junho, em Paris, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, tratou do tema com o comissário europeu de Comércio, Maros Sefcovic, à margem de reuniões da OCDE. Em nota conjunta, o governo classificou a decisão como injustificada e afirmou que as exportações seguem normalmente, sem impacto imediato. O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, reforçou nesta segunda, na Bahia Farm Show, que o objetivo é recolocar o Brasil na lista antes de setembro e para todas as carnes.
O mercado europeu não é o maior destino da proteína animal brasileira em volume, mas tem peso estratégico pelo alto valor agregado. Em 2025, o bloco importou US$ 1,8 bilhão em produtos brasileiros das categorias afetadas, sendo mais de US$ 1 bilhão apenas em carne bovina. O episódio expõe um paradoxo: a exclusão se consolida poucas semanas depois de o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia entrar em aplicação provisória, em 1º de maio, justamente quando o tratado prometia ampliar o acesso da carne da América do Sul ao continente.
Na imprensa europeia, a leitura predominante ligou a medida ao combate à resistência antimicrobiana e à chamada cláusula espelho, que estende a produtores de fora do bloco a proibição, vigente na UE desde 2006, de antibióticos como promotores de crescimento. O Le Monde situou a decisão no contexto da oposição francesa ao acordo com o Mercosul e dos protestos de agricultores, apresentando a exclusão como sinal de vigilância de Bruxelas diante da pressão do setor agrícola europeu, que denuncia concorrência desleal das importações da América do Sul. O comissário europeu de Agricultura, Christophe Hansen, resumiu o tom ao afirmar que o sistema europeu de controles funciona e que a Europa age quando suas normas sanitárias e antimicrobianas não são cumpridas.
O impasse tende a se definir nas próximas semanas. Bruxelas afirma que a habilitação pode ser restabelecida assim que o Brasil comprovar conformidade, e o país já editou, em abril, decreto que proíbe parte dos antimicrobianos usados como estimulantes de desempenho. Até setembro, a disputa segue menos sanitária do que regulatória e diplomática.




