
A crise de liderança que ameaça derrubar Keir Starmer de Downing Street reabriu uma ferida que a política britânica jamais cicatrizou completamente. O Brexit voltou ao centro do debate, e desta vez é a própria esquerda que está dividida.
Starmer, advogado e ex-procurador-geral público que chegou ao poder em julho de 2024 liderando uma vitória expressiva do Partido Trabalhista após 14 anos de governo conservador, enfrenta hoje uma revolta interna alimentada por resultados eleitorais desastrosos e índices de aprovação em queda. A perspectiva de que deixe o cargo nas próximas semanas, antes mesmo de completar dois anos de mandato, deixou o partido em estado de agitação.
Wes Streeting, ex-ministro da Saúde que pediu demissão do governo em 14 de maio para disputar a liderança do Partido Trabalhista, usou sua primeira aparição pública para defender o retorno do Reino Unido à União Europeia, classificando o Brexit como “um erro catastrófico”. A declaração, feita num evento organizado por uma entidade ligada ao trabalhismo, transformou o que poderia ser uma disputa de perfis numa divergência de visões sobre o futuro do país.
O momento escolhido é politicamente sensível.
O favorito à liderança é Andy Burnham, atual prefeito da Grande Manchester, que precisa vencer uma eleição complementar no distrito de Makerfield, no noroeste da Inglaterra, para se tornar membro do Parlamento, condição obrigatória para assumir o cargo de primeiro-ministro. O problema está nos números: cerca de dois terços dos eleitores de Makerfield votaram pelo Brexit no referendo de 2016, e o Reform UK, partido de direita populista liderado por Nigel Farage que nos últimos anos absorveu parte do eleitorado trabalhista tradicional do norte da Inglaterra, avança de forma consistente na região, que por décadas foi considerada reduto do Labour.
Nas eleições locais de 7 de maio, o Reform obteve cerca de 50% dos votos na região, contra apenas 25% dos trabalhistas, vencendo todas as cadeiras em disputa. Uma pesquisa da Survation indica que, com Burnham como candidato, o Labour tem mais chances de manter o assento, mas sem ele o partido de Farage seria favorito.
É nesse contexto que Streeting lançou seu apelo pela reentrada na UE, ressuscitando uma questão espinhosa justamente quando o partido começa a imaginar um futuro além de Starmer. Para Burnham, que embora seja pró-UE tem reiterado que respeita o resultado do referendo, a posição de Streeting cria um dilema: apoiar a proposta significa alienar eleitores que precisará conquistar em junho; rejeitá-la expõe uma divisão aberta no início da disputa.
Jonathan Hinder, deputado trabalhista pelo distrito de Pendle and Clitheroe, onde 65% votaram pelo Leave, nome dado ao campo favorável à saída da UE, afirmou à Times Radio que reabrir o debate seria “um nível assombroso de desconexão com a realidade”. “A ideia de que podemos nos reconectar à nossa base da classe trabalhadora reabrindo essa discussão é simplesmente estarrecedora”, disse o parlamentar.
A questão tem implicações concretas além do simbolismo político. Reintegrar o Reino Unido à UE exigiria negociações complexas e um novo tratado de adesão, com contribuições maiores ao orçamento de Bruxelas, uma vez que o país perdeu o chamado “rebate” histórico que reduzia sua cota. O processo também envolveria abrir mão das cláusulas de exceção que mantinham o Reino Unido fora do euro e do espaço Schengen.
Bruxelas, por ora, trata o assunto com cautela. “Não estamos nesse ponto”, disse a porta-voz oficial da Comissão Europeia ao ser questionada sobre a possibilidade de readmissão britânica. “No momento, há discussões sobre cooperação mais estreita em diversas áreas. É aí que estamos.”
O cenário econômico ajuda a explicar por que o tema voltou à superfície. Uma análise da Frontier Economics aponta que a remoção de barreiras comerciais entre o Reino Unido e a UE poderia gerar um incremento de 2,2% no PIB britânico a longo prazo, equivalente a cerca de £25 bilhões anuais em exportações. O Instituto Nacional de Pesquisa Econômica e Social advertiu, por outro lado, que a ausência de acordo poderia provocar uma queda de 2,7% nas exportações até 2027, custando quase £30 bilhões à economia.
O acordo de “reset” anunciado por Starmer na cúpula desta semana promete um estímulo de £9 bilhões à economia britânica e redução nos preços dos alimentos, mas economistas já relativizaram o impacto, alertando que o benefício pleno só se materializaria por volta de 2040.




