
O boicote anunciado nesta quinta-feira pelas 55 federações europeias já era esperado depois de uma semana de escalada. O que apareceu pouco na cobertura foi a entrada da Comissão Europeia no caso.
O comissário de Esporte do bloco, Glenn Micallef, disse que a Comissão vai estudar as propostas com atenção e lembrou que, pelos tratados europeus, regras esportivas estão sujeitas ao direito da UE quando têm impacto sobre a economia do bloco. Ele também afirmou que a comercialização incessante do futebol se tornou corrosiva. Segundo o Euractiv, a operação pode ser avaliada sob as regras de concorrência da UE.
Ou seja, uma briga de futebol virou tema regulatório europeu. E a Uefa, que perdeu em 2023 no Tribunal de Justiça da UE o caso da Superliga, agora usa o direito comunitário a seu favor. A mesma decisão que limitou o poder das confederações pode agora ser usada contra a venda de participação na Copa.
A informação saiu primeiro no Financial Times e no The Times. Depois disso, a cobertura tomou dois rumos.
Os veículos americanos focaram no investidor e na política interna dos Estados Unidos. CBS, Time e Fortune destacaram que a operação seria liderada pela Thrive, de Joshua Kushner, com a Apollo Sports Capital em negociação para entrar no grupo. Já a imprensa europeia foi para governança e falta de consulta. Os jornais britânicos registraram que a Federação Inglesa não sabia de nada, mesmo depois de reuniões da Fifa com federações em Nova York.
As análises mais duras vieram de especialistas. Um pesquisador de private equity no futebol disse à ESPN que a promessa de valorização permanente do torneio é o que atrai esse tipo de capital, e que a Fifa pode ter subavaliado o próprio ativo. A Forbes lembrou o efeito prático: investidores tendem a pedir mais expansão, porque mais jogos significam mais receita de TV e mais patrocínio.
A conta que a Europa não controla
A Europa tem 55 dos 211 votos. E a proposta da Fifa é financeiramente atraente para quem tem menos recursos. Infantino ofereceu US$ 40 milhões a cada associação que aprovar o plano até 19 de setembro, dentro de um pacote de US$ 10 bilhões. Se rejeitado, o valor volta ao patamar anterior, de cerca de US$ 10 milhões por federação. Do lado dos investidores, uma fonte próxima ao acordo disse que a Europa deixaria US$ 1,1 bilhão na mesa.
Essa conta pesa mais para federações pequenas do que para Alemanha ou Espanha. É por isso que o plano ainda pode passar. Mas a resistência não é só europeia. A AFC avisou que a proposta não avança sem o apoio dos seis blocos regionais, e a Concacaf reclamou da falta de consulta. A CAF pediu aos seus 54 filiados que revisem o plano. Conmebol e CBF ainda não se posicionaram.
A pressão política europeia sobre Infantino não começou agora. Setenta e dois eurodeputados assinaram carta pedindo que o Comitê de Ética da Fifa investigue o dirigente por possível quebra de neutralidade política. Antes disso, 50 parlamentares apoiaram formalmente uma denúncia sobre o prêmio da paz dado a Donald Trump. A ONG que fez a denúncia classificou o gesto como a maior intervenção de políticos europeus na governança do futebol mundial desde 2015.
O roteiro é parecido com o de outros setores. Capital americano avança sobre um ativo europeu, a reação política vem primeiro e a decisão final acaba em Bruxelas.
O teste prático chega em setembro. O próximo torneio da Fifa é o Mundial feminino de base, na Polônia, a partir do dia 5. O prazo dado por Infantino vence duas semanas depois.




