Bruxelas pede redução do consumo de energia e avisa que preços não voltarão ao normal tão cedo

02 de abril de 2026 3 minutos
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A Comissão Europeia intensificou seus apelos aos Estados-membros para que adotem medidas imediatas de contenção do consumo energético, num sinal claro de que Bruxelas começa a tratar o choque provocado pela guerra no Irã não como um episódio transitório, mas como uma ameaça estrutural prolongada.

Em carta enviada na terça-feira (31/03) aos 27 países do bloco, o comissário europeu para Energia, Dan Jørgensen, recomendou a adoção do plano de dez pontos elaborado pela Agência Internacional de Energia (AIE), que inclui incentivos ao trabalho remoto, ao transporte público e ao carona compartilhado, além de redução dos limites de velocidade nas autoestradas. O plano foi originalmente concebido em 2022, no contexto da invasão russa da Ucrânia — e o fato de ser ressuscitado agora diz muito sobre a gravidade do momento.

Jørgensen foi direto ao ponto: mesmo que a paz seja declarada amanhã, os preços não voltarão ao normal “num futuro previsível”. A declaração, feita após reunião de ministros de energia da UE, marca uma virada de tom relevante em Bruxelas, de gestão de curto prazo para preparação de um cenário adverso prolongado.

Os números justificam o alerta. Em apenas 30 dias de conflito, a conta europeia de importação de combustíveis fósseis cresceu €14 bilhões, enquanto o preço do gás subiu 70% e o do petróleo, 60%. São cifras que já se traduzem em pressão sobre a eletricidade doméstica e sobre a competitividade industrial, e que forçam Bruxelas a avaliar instrumentos de alívio como cortes de impostos, apoio direcionado a consumidores vulneráveis e um possível imposto sobre lucros extraordinários de empresas de energia.

A questão que preocupa mais imediatamente, porém, não é o crude em si, mas os derivados. O maior problema identificado pela AIE é a escassez de querosene de aviação e diesel, já visível na Ásia e com chegada esperada à Europa em abril ou início de maio. O continente importa mais de 40% desses produtos do Golfo Pérsico, e a disponibilidade de fornecedores alternativos é limitada.

O diretor-executivo da AIE, Fatih Birol, foi ainda mais enfático: a perda de petróleo em abril será o dobro da registrada em março, além da perda de GNL, e o impacto chegará via inflação e queda do crescimento econômico. Birol classificou o atual choque como o maior da história, superior, em conjunto, às crises do petróleo de 1973 e 1979 e à ruptura do gás russo em 2022. As perdas globais já somam cerca de 12 milhões de barris por dia, mais do que o dobro do que foi perdido em cada uma das crises dos anos 1970.

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