
Dez anos depois do referendo do Brexit, a volta à União Europeia entrou na lista de opções que o primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, diz que vai avaliar para a relação com Bruxelas. Em entrevista à BBC, emissora pública do Reino Unido, ele citou quatro caminhos: manter o acordo atual, aderir a uma união aduaneira, voltar ao mercado único ou “ir até o fim”, o que equivaleria à adesão plena.
Burnham disse que as opções devem ser avaliadas pelo que é viável e pelas vantagens e desvantagens de cada uma. Em discurso no congresso do Partido Trabalhista, afirmou que a saída do bloco não cumpriu a promessa de “retomar o controle” e deixou o país mais fraco, sobretudo na economia e na imigração, segundo a agência de notícias Reuters. Ele já disse que gostaria de ver o país de volta ao bloco ainda em vida.
A posição difere da que o Partido Trabalhista, de centro-esquerda, levou às urnas em 2024. O programa da época prometia ficar fora do bloco e descartava a volta ao mercado único, à união aduaneira e à livre circulação de pessoas. Burnham não liderou aquela campanha. Prefeito da região metropolitana de Grande Manchester desde 2017, voltou ao Parlamento em junho ao vencer uma eleição suplementar em Makerfield, aberta para viabilizar sua candidatura à liderança do partido. Os maus resultados dos trabalhistas nas eleições locais de maio já tinham levado dezenas de deputados a pedir a renúncia de Starmer, e Burnham assumiu o governo em julho. No sistema parlamentarista britânico, o partido no poder pode trocar de líder no meio do mandato, e o sucessor vira primeiro-ministro sem eleição geral.
Segundo a Reuters, Burnham disse que manterá os compromissos de 2024. A agência observa que qualquer mudança formal teria de esperar a próxima eleição geral, prevista até meados de 2029.
Cada alternativa implica custos diferentes. A união aduaneira, defendida pelo ex-ministro das Finanças conservador George Osborne, faria os dois lados cobrarem as mesmas tarifas sobre importações de terceiros países. Reduziria a burocracia no comércio de bens sem exigir livre circulação de pessoas, mas não eliminaria todos os controles de fronteira, deixaria os serviços de fora e limitaria a liberdade de Londres para fechar acordos comerciais próprios.
O mercado único, proposta dos Liberais Democratas, partido de centro, garante a livre circulação de bens, serviços, capitais e pessoas em troca de seguir as regras do bloco sem votar nelas, como faz a Noruega. Já a adesão plena devolveria ao país um assento nas decisões, mas em condições diferentes das anteriores. O Reino Unido saiu com isenções que não são oferecidas a novos membros, como ficar fora do espaço Schengen, de circulação sem controle de fronteiras, e ter desconto na contribuição ao orçamento europeu. Quem entra hoje assume o compromisso de adotar o euro no futuro.
Há também uma disputa concreta em curso. O bloco discute o programa “Made in Europe”, que dá prioridade a empresas europeias em compras públicas e foi concebido para fortalecer a produção local e proteger a indústria da concorrência chinesa. Burnham pede que o Reino Unido não fique de fora. Segundo a rede de notícias europeia Euronews, autoridades do bloco dizem que o governo britânico trata o tema como prioridade nas conversas com Bruxelas, que também abrangem comércio agroalimentar e um programa de vistos para jovens.
No Reino Unido, as reações vieram de vários lados. Segundo a Reuters, a mensagem foi bem recebida por muitos trabalhistas. Já o Reform UK, partido de direita populista liderado por Nigel Farage, criticou os planos e atribuiu o baixo crescimento econômico ao governo, e não ao referendo. O vice-líder, Richard Tice, disse que Burnham tenta levar o país de volta a Bruxelas “pela porta dos fundos”.
A opinião pública mudou desde 2016, quando 51,9% votaram pela saída. O acompanhamento do instituto YouGov, com dados coletados em setembro, mostra 59% a favor da volta à UE e 32% contra. Uma relação mais próxima sem voltar ao bloco, ao mercado único nem à união aduaneira tem apoio ainda maior, de 73%. O instituto também registrou que mais britânicos se opõem do que apoiam a volta se o país não puder manter as isenções que tinha. A Reuters observa que o apoio costuma cair quando entram na pergunta exigências como contribuir para o orçamento do bloco e adotar o euro.
Enquanto Londres discute o tema, Bruxelas testa formatos novos de parceria. No discurso anual sobre o Estado da União, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, propôs que o Canadá se torne o primeiro “membro associado” do bloco. O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, busca reduzir a dependência dos Estados Unidos, destino de cerca de 70% das exportações do país. Segundo a agência americana Associated Press, não há regras sobre como esse status funcionaria, e a ideia já foi cogitada para a Ucrânia e para o Reino Unido pós-Brexit, sem passos concretos.
A próxima etapa é a cúpula entre Reino Unido e União Europeia, adiada desde julho com a renúncia de Starmer e que, segundo a Reuters, pode ocorrer em novembro. Burnham diz que pretende aproveitá-la para apresentar ao país as opções que considera possíveis.




