
A Lindt & Sprüngli cortou sua previsão de vendas para 2026 pela segunda vez no ano, a mais recente evidência de que o consumidor europeu está comprando menos chocolate diante de preços mais altos e de um verão historicamente quente no continente.
A empresa agora projeta crescimento orgânico de vendas entre 0% e 2% neste ano, abaixo da faixa anterior de 4% a 6% e também abaixo do consenso de mercado de 3,9% citado pela Vontobel, banco suíço de investimentos. A primeira revisão para baixo já havia ocorrido em março.
O mercado reagiu mal ao anúncio. As ações da Lindt caíram 8,66% na Bolsa de Zurique, atingindo o menor preço desde março de 2021 e ficando na última posição do Stoxx 600, índice que reúne as 600 maiores empresas listadas em bolsas europeias. No ano, o papel já acumula queda de mais de um quarto de seu valor.
Segundo o diretor-presidente da Lindt, Adalbert Lechner, os preços historicamente altos do cacau forçaram a empresa a aumentar substancialmente seus preços, reduzindo a demanda num momento em que o consumidor está cada vez mais sensível a preço em meio a um cenário econômico incerto. Somente nos últimos seis meses, o preço do cacau subiu cerca de 80%. Esse clima de cautela levou a volumes de pedidos abaixo do esperado em certos mercados europeus, sobretudo nos produtos sazonais, com queda mais acentuada na Alemanha, na Suíça e na Áustria.
À pressão de preço somou-se o clima. Segundo Lechner, as ondas de calor no verão europeu reduziram, isoladamente, o crescimento das vendas em cerca de 1,5 ponto percentual.
Analistas da Vontobel avaliaram, em nota a investidores, que o segundo corte de previsão em seis meses “abala a reputação da Lindt de fornecer projeções confiáveis”, um dos pilares que sustentam os múltiplos premium da ação no mercado.
Para reverter o quadro, a Lindt anunciou que vai reduzir preços, começando pelos produtos natalinos agora e se estendendo de forma mais ampla a partir de janeiro, segundo informou a Bloomberg. Lechner explicou que a empresa trabalha com contratos de proteção de preço para a compra de cacau, por isso não se beneficiou este ano da recente queda nas cotações da commodity, mas deve sentir esse alívio em 2027, o que abre espaço para preços menores. Cortes já testados em agosto em alguns mercados-chave, segundo ele, mostraram relação direta com a recuperação do volume vendido.
A empresa também sinalizou uma mudança estrutural para lidar com verões mais quentes: pretende ampliar o investimento em equipamentos de sorvete nas próprias lojas e avalia entrar em produtos refrigerados, na avaliação de que altas temperaturas no verão deixaram de ser exceção.
A pressão não é exclusiva da Lindt. Em julho, a Barry Callebaut, fabricante suíça de chocolates e processadora de cacau, já havia projetado queda de 1% no volume anual de vendas, sinal de que o aperto atinge o setor como um todo.
Apesar da revisão, a Lindt manteve a projeção de melhora de 20 a 40 pontos base na margem operacional em 2026 e reiterou a meta de médio prazo de crescimento orgânico de 6% a 8% ao ano, com ganhos anuais de margem de 20 a 40 pontos base a partir de 2028.
A companhia carrega mais de 180 anos de história europeia. Fundada em 1845 em Zurique pelo confeiteiro David Sprüngli-Schwarz e seu filho Rudolf, a marca ganhou o nome atual em 1899, quando a família Sprüngli comprou a fábrica e a técnica de Rodolphe Lindt, o chocolateiro que havia inventado a conchagem, processo que deixa o chocolate mais liso e cremoso e que até hoje é referência na produção do setor. Hoje a empresa opera 12 fábricas na Europa e nos Estados Unidos, soma cerca de 15.500 funcionários e reportou vendas de 5,92 bilhões de francos suíços em 2025, distribuídas por 41 subsidiárias, cerca de 650 lojas próprias e uma rede de 100 distribuidores ao redor do mundo. Segundo a própria empresa, é a líder global em chocolate premium e a única companhia do setor com atuação dedicada exclusivamente ao chocolate. Mesmo em meio ao aperto na Europa, a Lindt segue expandindo para novos mercados: no início de setembro, abriu sua primeira loja própria na Índia, em Nova Délhi.




