
O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, discursou no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, e afirmou que uma aliança mais próxima com a União Europeia reforçaria a soberania do país em meio à pressão comercial dos Estados Unidos. “Europa e Canadá são mais fortes juntos”, declarou.
A fala confirma um aceno feito na véspera pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, durante o discurso sobre o Estado da União. Ela propôs abrir caminho para que o Canadá se torne o primeiro membro associado do bloco, status sem precedente nos tratados europeus. Carney chamou a proposta de uma ambição que o Canadá acolhe.
Juridicamente, “membro associado” não existe hoje como categoria formal nos tratados da União Europeia, e qualquer arranjo desse tipo precisaria ser criado e ratificado pelos países do bloco. O artigo 217 do Tratado de Funcionamento da UE permite acordos de associação com países terceiros, com direitos e obrigações recíprocos, base ampla o suficiente para abrigar interpretações distintas. É o mesmo dispositivo que sustenta o Espaço Econômico Europeu, estrutura que conecta Islândia, Noruega e Liechtenstein ao mercado único, com acesso a bens, serviços, capital e pessoas.
O pacote em discussão vai além do comércio e prevê integração das bases industriais de defesa, uma aliança tecnológica, cooperação em energia, inteligência artificial e no Ártico. O Canadá já é o único país fora do bloco com acesso ao Safe, o instrumento europeu de financiamento para compras de defesa, o que facilita a ampliação dessa parceria militar.
O pano de fundo é a deterioração das relações entre Ottawa e Washington. Trump elevou para 50% a tarifa sobre produtos canadenses e prepara restrições à importação de laticínios, bebidas alcoólicas e veículos do país vizinho, o que já provocou retaliação de Ottawa.
Questionado sobre a proposta de Von der Leyen, Trump chamou a ideia de “risível” e classificou o Canadá de “terrível parceiro comercial”. Ameaçou impor tarifas ainda mais pesadas contra a União Europeia caso interprete o movimento como um gesto hostil. “Se a intenção for boa, tudo bem. Se for ruim, vamos colocar tarifas muito pesadas sobre a Europa”, disse a jornalistas.
Carney evitou ampliar o escopo da proposta. Segundo ele, o Canadá não busca virar membro pleno da UE nem formar um terceiro polo de poder global. “Não estou propondo um terceiro bloco para nos tornarmos um rival de superpotência apenas com melhores modos”, afirmou. Questionado sobre o nome exato do novo status, disse que a substância do acordo importa mais do que o rótulo, e que o entendimento final ainda passará por votação no Parlamento canadense.
Para o comissário europeu do Clima, Wopke Hoekstra, o próprio fato de UE e Canadá cogitarem esse tipo de arranjo inédito já é um sinal do momento que o mundo atravessa, com regras antes tidas como consolidadas deixando de ser respeitadas, o que aproxima países com valores semelhantes.




