
A CDU, partido do chanceler Friedrich Merz, ficou a 0,1 ponto percentual de continuar no Parlamento de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, estado do nordeste da Alemanha. Com 4,9% dos votos, ficou abaixo da cláusula de barreira, regra segundo a qual um partido precisa de pelo menos 5% para ter cadeiras. Foi a primeira vez, desde a fundação da legenda, em 1945, que ela ficou fora de um parlamento estadual.
A União Democrata Cristã (CDU) é o tradicional partido conservador alemão, de Konrad Adenauer, Helmut Kohl e Angela Merkel, três chanceleres que marcaram a história do país. No estado, ela perdeu mais da metade do eleitorado de 2021, quando teve 13,3%. O pior resultado anterior em uma eleição estadual era de 9%, em Bremen, em 1951. Em eleições federais, a CDU nunca ficou abaixo da cláusula de barreira e, até o início dos anos 2000, chegava com frequência a mais de 40% dos votos.
A Alemanha tem 16 estados, e cada um elege seu próprio parlamento. Essas eleições não escolhem o chanceler, mas costumam ser vistas como um termômetro da popularidade dos partidos nacionais.
Na noite da votação, antes da confirmação dos números, que ainda oscilavam entre 5% e 5,5%, Merz fez um pronunciamento incomum. Chamou o resultado de “desastre” e disse que pretende permanecer no cargo e seguir com as reformas, entre elas a da aposentadoria. No dia seguinte, prometeu manter a coalizão com o Partido Social-Democrata (SPD), tradicional rival da CDU que hoje divide com ela o governo federal. Afirmou também que as causas do resultado vão além de sua pessoa e que a Alemanha vive uma transformação profunda do sistema partidário, como muitos outros países. Merz cancelou ainda a ida à Assembleia Geral da ONU, em Nova York.
O resultado se soma ao da Saxônia-Anhalt, no leste do país, onde a CDU caiu de 37,1% para 17,2%, a pior votação do partido no estado desde a reunificação, em 1990. A eleição foi tratada em matéria anterior do Europa Brasil [inserir link]. Nos dois estados, a AfD (Alternativa para a Alemanha), partido de extrema direita, dobrou seus votos. Em Berlim, também cresceu. Em 2018, ao disputar a presidência da CDU, Merz havia prometido que o apoio à AfD poderia cair pela metade sob sua liderança.
Para se manter no poder, o chanceler precisa do apoio das lideranças estaduais da CDU, sobretudo dos oito governadores do partido. Na noite eleitoral, a maioria deixou a sede da legenda sem comentar. Não há plano claro de sucessão nem um nome que una todas as alas. Os mais citados são Hendrik Wüst, governador da Renânia do Norte-Vestfália, e Markus Söder, líder da CSU. A União Social Cristã (CSU) é o partido irmão da CDU e atua só na Baviera. Wüst disputa a reeleição em abril, o que torna uma candidatura agora pouco conveniente. Apoiar Söder poderia enfraquecer ainda mais a CDU, por vir de um partido que não existe fora da Baviera.
O pacote de reformas, por sua vez, encontra resistência em setores do SPD. A governadora Manuela Schwesig, do SPD, teve boa votação em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental após uma campanha que enfrentou a AfD e criticou o fim previsto da aposentadoria sem desconto após 45 anos de contribuição, regra que hoje permite parar de trabalhar sem redução no benefício quem contribuiu por esse período. O resultado pode levar o SPD a rever o apoio aos planos de Merz. O secretário-geral do partido, Tim Klüssendorf, afirmou que reformas não podem ser confundidas com cortes, e temas como aposentadorias e cuidados de longo prazo devem voltar ao centro do debate.
Segundo a Deutsche Welle, emissora de rádio e televisão internacional oficial da Alemanha, a posição enfraquecida de Merz à frente do maior e mais influente país da União Europeia pode comprometer a unidade do bloco. A emissora cita um momento em que a extrema direita ganha força, as relações com os Estados Unidos esfriaram e as pressões econômicas aumentaram.




