
O verão europeu, historicamente a temporada mais lucrativa para o setor aéreo, ameaça tornar-se o período mais turbulento da última década. A guerra no Irã e o bloqueio ao Estreito de Ormuz desencadearam uma crise de combustível que já forçou cortes de voos em escala e levanta questões sérias sobre a viabilidade financeira de parte do setor.
O alerta veio do CEO da Ryanair, Michael O’Leary: duas ou três companhias aéreas europeias poderiam enfrentar colapso financeiro até o fim de 2026 caso os preços do combustível se mantenham no patamar atual, com Wizz Air e airBaltic sendo as operadoras mais vulneráveis. O’Leary admitiu que a crise já adicionou US$ 50 milhões à conta de combustível da Ryanair apenas em abril, com projeção de US$ 600 milhões ao longo de um ano se o cenário persistir.
As reações foram imediatas. A Wizz Air classificou os comentários como totalmente inverídicos e falsos, destacando seu balanço sólido, liquidez expressiva e o fato de financiar aeronaves com 18 meses de antecedência. O CEO da Wizz Air, József Váradi, chegou a brincar em entrevista recente que a companhia já teria falido ao menos dez vezes segundo O’Leary. Já a airBaltic, companhia de bandeira da Letônia, não respondeu publicamente, mas o parlamento do país aprovou um empréstimo emergencial de €30 milhões para mitigar os impactos do conflito no Oriente Médio sobre a situação financeira da companhia, com prazo de pagamento até 31 de agosto. A concessão do aporte, por si só, sinaliza que as pressões são concretas, independentemente do tom provocativo do irlandês.
O’Leary tem histórico de previsões catastrofistas sobre rivais que não se concretizaram. Mas desta vez há respaldo de outras fontes. A Agência Internacional de Energia classificou a situação atual como a maior ameaça à segurança energética da história e advertiu que vários países europeus podem começar a enfrentar escassez de querosene nas próximas semanas.
A raiz do problema está na estrutura de abastecimento do continente. Cerca de 75% das importações europeias de querosene de aviação provêm do Oriente Médio, tornando o setor especialmente vulnerável a qualquer perturbação prolongada na região. Com o bloqueio ao Estreito de Ormuz, o preço do querosene praticamente dobrou desde o início do conflito, passando de cerca de US$ 74 por barril para aproximadamente US$ 150, uma alta de 84% desde o fim de fevereiro. As companhias aéreas europeias respondem à pressão de formas distintas: a KLM cancelou 160 rotas intra-europeias, a SAS cortou cerca de mil voos em abril, enquanto a Lufthansa já imobilizou 27 aeronaves de curto alcance e antecipou a aposentadoria de quatro A340-600.
A Lufthansa vai além dos cortes. A companhia divulgou planos de contingência que incluem a possibilidade de adicionar escalas técnicas de reabastecimento em voos que hoje operam sem paradas, o que aumentaria o tempo de viagem e os custos operacionais em rotas de longa distância. A fatura total de querosene do grupo deve chegar a cerca de €8,9 bilhões em 2026, quase 20% acima das projeções anteriores.
A Ryanair, de sua parte, construiu deliberadamente uma posição mais protegida. A companhia tem 80% de suas necessidades de combustível cobertas por contratos de hedge firmados antes do conflito, a US$ 67 por barril, com cobertura até março de 2027, e comprometeu-se a não repassar sobretaxas de combustível aos passageiros durante o verão. A proteção é real, mas parcial: o restante do abastecimento segue exposto aos preços de mercado, que hoje são mais que o dobro dos níveis pré-guerra.
A questão que o mercado ainda não consegue responder é por quanto tempo o bloqueio ao Estreito de Ormuz vai durar. O’Leary estimou que, mesmo que o conflito termine de imediato, seriam necessários de três a quatro meses para que os preços caíssem abaixo de US$ 100 por barril, possivelmente só em setembro. Para as companhias aéreas que chegaram ao verão com reservas de caixa limitadas e sem cobertura adequada contra a volatilidade do combustível, esse intervalo pode ser decisivo.




