
Cerca de 550 mil pessoas participaram de manifestações contra o custo de vida na França no auge da mobilização, segundo o Ministério do Interior. Atos menores, em alguns casos violentos, ocorreram na Bélgica, na Itália, em Portugal e na Espanha. Os motivos variam de país para país, entre escolas, moradia e combustíveis, mas a pressão de preços é comum e os protestos chegam perto de eleições na Espanha, na França e na Itália.
Na França, os atos começaram com queixas sobre a deterioração das escolas nos subúrbios ao norte de Paris e se transformaram em uma das piores ondas de desordem em décadas, com lojas saqueadas e prédios incendiados, segundo a agência de notícias Reuters. Um deles foi a prefeitura de Limoges, do século 19, que ficou em grande parte destruída, informou a agência francesa AFP. O presidente Emmanuel Macron reconheceu parte das demandas como legítimas e condenou a violência, e o governo orientou autoridades regionais a impor toques de recolher parciais, segundo a emissora pública australiana ABC.
Em Milão, manifestantes atiraram pedras contra a polícia e saquearam lojas, e bloqueios de caminhoneiros, agricultores e metalúrgicos afetam o transporte no sul da Itália, com falta local de combustível, segundo a Reuters. Em Lisboa, dezenas de milhares de pessoas marcharam contra salários baixos e o preço da moradia, o que aumenta a pressão sobre o governo de centro direita. Na Espanha, o despejo de uma idosa de 87 anos desencadeou protestos por moradia e ajudou a levar o premiê Pedro Sánchez a convocar eleições antecipadas para o fim de novembro. Os dois maiores sindicatos do país apoiam uma greve geral no mesmo mês, a primeira com essa adesão conjunta em 14 anos.
A inflação ajuda a explicar o momento. Segundo o Eurostat, agência de estatísticas da União Europeia, os preços na zona do euro subiram 3,8% em 12 meses até setembro, ante 2,2% um ano antes, e a energia ficou 18,8% mais cara na estimativa preliminar. Dados da Comissão Europeia reunidos pela AFP mostram que o preço médio do diesel na União Europeia chegou a um recorde de 2,24 euros por litro no início de outubro, contra 1,59 euro em fevereiro, antes dos ataques de Estados Unidos e Israel ao Irã. Na semana seguinte, a média recuou para 2,15 euros. A AFP cita como fatores o fechamento efetivo do Estreito de Ormuz, o bloqueio dos houthis às exportações sauditas pelo Mar Vermelho e os ataques ucranianos a refinarias russas. O Banco Central Europeu elevou os juros em 0,25 ponto percentual em setembro, para 2,50% ao ano na taxa de depósito, e citou o conflito no Oriente Médio como fonte de pressão inflacionária.
Para Gilles Ivaldi, cientista político da universidade francesa Sciences Po, a preocupação com o poder de compra virou um dos principais motores da política populista na Europa, disse ele à Reuters. Jan Steckel, professor de economia política da mudança climática na Universidade Técnica de Munique, afirmou que partidos populistas costumam tratar o custo da energia como evitável e responsabilizar os governos, enquanto os choques geopolíticos que o provocam são mais difíceis de explicar, o que dificulta a vida de quem está no poder.
Na França, a eleição presidencial de abril do ano que vem tem Marine Le Pen, do partido de ultradireita Reunião Nacional, como favorita. A Reuters cita pesquisa do instituto Elabe segundo a qual a avaliação de Le Pen melhorou desde o início da guerra entre Estados Unidos e Irã, enquanto a de Macron piorou. Le Pen propõe um corte forte no imposto sobre valor agregado dos combustíveis, e o líder da esquerda radical Jean-Luc Mélenchon, da França Insubmissa, também colocou o preço dos combustíveis no centro de sua campanha. O governo lida ainda com um déficit orçamentário crescente e com a pressão dos mercados de títulos.
Políticos da direita e da esquerda radicais argumentam que retomar os laços de energia com a Rússia reduziria os custos, o que contesta o consenso europeu de apoio à Ucrânia, segundo a Reuters. Na Alemanha, a AfD (Alternativa para a Alemanha), partido de ultradireita que lidera as pesquisas nacionais, defende restabelecer esses laços e argumenta que o apoio a Kiev prejudica sem necessidade a economia alemã, a maior da Europa.
Na Itália, a premiê Giorgia Meloni enfrenta a concorrência do Futuro Nacional, novo partido de ultradireita liderado por Roberto Vannacci, que defende restabelecer as ligações de gás com a Rússia. Na Polônia, um dos aliados mais firmes de Kiev, a preocupação com as contas de energia ajuda a elevar o apoio à Confederação da Coroa Polonesa, cujo líder, Grzegorz Braun, pede a volta das compras de petróleo e gás russos.




