
No fim do segundo trimestre de 2026, cinco países da União Europeia deviam mais do que produziam em um ano inteiro. No outro extremo, quatro economias operavam com dívida pública abaixo de 30% do PIB, um contraste que revela menos uma crise única e mais trajetórias fiscais muito distintas dentro do bloco.
O estoque de dívida dos governos dos 27 membros somava €15,95 trilhões, o equivalente a 82,9% do PIB da União Europeia, segundo dados da Eurostat compilados pelo Visual Capitalist. A proporção subiu de 81,4% no mesmo período de 2025, indicando que o endividamento relativo do bloco voltou a crescer.
O clube dos 100%
Grécia, com 140,8% do PIB, e Itália, com 139,9%, seguem no topo do ranking, praticamente empatadas. França, com 119,1%, Bélgica, com 110,2%, e Espanha, com 101,4%, completam o grupo de países cuja dívida ultrapassa o PIB anual. Portugal, com 92,5%, Finlândia, com 90,2%, e Áustria, com 83,6%, vêm logo abaixo da barreira simbólica dos 100%.
A posição da França chama atenção porque combina a terceira maior dívida relativa do bloco com uma economia central da zona do euro. A Alemanha, maior economia europeia, registra 63,4% do PIB em dívida, bem abaixo da média da União Europeia.
O outro extremo
No lado leve do mapa estão Estônia, com 26,1%, Dinamarca, com 27,1%, Luxemburgo, com 28,2%, e Bulgária, com 28,7%. Irlanda e Suécia aparecem em 35,3%, enquanto Holanda, Tchéquia e Lituânia ficam na faixa dos 43%.
O contraste mostra que pertencer ao núcleo rico da UE não garante contas folgadas, nem que estar no Leste europeu implica fragilidade fiscal. A Hungria, por exemplo, tem 75,6% do PIB em dívida, bem acima da Alemanha.
A relação entre dívida e PIB é indispensável, mas parcial. Ela compara um estoque acumulado com a produção corrente e não captura, por si só, o custo dos juros, o prazo médio da dívida, a moeda em que ela é emitida, o crescimento potencial ou a capacidade política de aprovar ajustes.
A Grécia ilustra essa nuance. Mesmo como país mais endividado do bloco, reduziu sua razão dívida para PIB em 11,2 pontos percentuais em um ano, segundo a Eurostat. Um estoque alto pode conviver com uma trajetória de queda, desde que o crescimento, a inflação e a disciplina orçamentária se sustentem.
O arcabouço de governança econômica da União Europeia usa 60% do PIB como valor de referência para a dívida e 3% para o déficit anual. Ultrapassar esses patamares não é proibido, mas pode levar à abertura ou à manutenção de procedimentos de déficit excessivo e a trajetórias de despesa definidas com Bruxelas.
O espaço para ajuste, porém, encolhe. Envelhecimento populacional, despesas com defesa, investimentos em infraestrutura e o fim do ciclo de juros baixos voltam a pressionar orçamentos que já carregam as heranças da crise financeira de 2008 e da pandemia de covid 19.




