
O segundo turno da eleição presidencial brasileira, no fim de outubro, vai definir quem governa o país a partir de 2027 e em que condições o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia (UE) será implementado. O senador Flávio Bolsonaro (PL) terminou o primeiro turno à frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A diferença, de menos de dois pontos percentuais, é a menor entre primeiro e segundo colocados no primeiro turno desde 1989.
O acordo tem trajetória própria: a parte comercial é aplicada desde maio, e o restante da tramitação está em Bruxelas. O que o resultado pode alterar é o tom político da relação, a forma de implementação e o ambiente doméstico em que ela ocorrerá, com um Congresso mais conservador e uma renovação prevista no Supremo Tribunal Federal (STF). A seguir, o que se sabe e os cenários para o curto, o médio e o longo prazo.
Flávio foi o mais votado em 14 estados e no Distrito Federal, e Lula em 12. Lula manteve a vantagem no Nordeste, e Flávio virou o resultado de 2022 em Minas Gerais e Tocantins. A abstenção foi de 21,08%, a maior desde 1998. Lula prometeu iniciar de imediato uma nova campanha para virar o resultado, e Flávio disse que o Brasil quer mudança.
A direita ampliou espaço também fora da Presidência. O PL elegeu cinco governadores no primeiro turno, o PSD elegeu quatro e o PT, três. No Senado, o PL deve começar a legislatura com 28 senadores, a maior bancada desde 1988, e na Câmara terá 121 deputados, segundo projeções. O Centrão, bloco de partidos de centro e de direita, ficou neutro na disputa presidencial, e o próximo presidente terá de negociar com esse Congresso.
A imprensa estrangeira destacou a reviravolta na contagem, a prisão de Jair Bolsonaro e a proximidade de Flávio com o governo de Donald Trump. O New York Times escreveu que a disputa pareceu muito acirrada e o Wall Street Journal que Lula enfrenta uma batalha difícil no segundo turno. O Le Monde e o Guardian destacaram a vantagem de Flávio. O argentino La Nación citou sua proximidade com Trump e com o presidente argentino, Javier Milei, e o South China Morning Post, de Hong Kong, lembrou sua proposta sobre acesso dos Estados Unidos a minerais críticos.
Analistas veem Flávio como favorito, e desde a redemocratização o candidato que liderou o primeiro turno sempre venceu. Os mercados reagiram: o contrato futuro do Ibovespa subiu cerca de 9% na abertura, e o dólar futuro recuou mais de 4%, para perto de R$ 5. Analistas atribuem o movimento à expectativa de maior disciplina fiscal e de um Congresso mais conservador.
Curto prazo: até a posse, no início de 2027
Nas próximas semanas, os sinais relevantes para a Europa são as primeiras pesquisas do segundo turno, os apoios dos candidatos eliminados, a escolha das equipes econômicas e as declarações dos dois candidatos sobre o acordo com o Mercosul. Flávio disse em julho que proporá um acordo de livre comércio entre Brasil, Estados Unidos, México e Canadá nos moldes do Nafta.
O acordo segue em aplicação, qualquer que seja o resultado. No fim de setembro, o Tribunal de Justiça da UE (TJUE) rejeitou o pedido da Polônia para suspender a aplicação provisória da parte comercial, e a ação principal do país contra a decisão do Conselho da UE continua em análise. Desde maio, a UE eliminou tarifas de mais de 5 mil produtos, cerca de metade do universo tarifário, e a ApexBrasil estimou que as exportações brasileiras ao bloco poderiam crescer até US$ 1 bilhão em 12 meses.
Há também uma agenda técnica em curso. A UE suspendeu em setembro as importações brasileiras de carne bovina, aves, ovos e mel, por causa das regras europeias sobre antimicrobianos. O representante comercial da UE afirmou ao governo brasileiro que as exportações de aves e mel podem ser retomadas no curto prazo. O novo Senado toma posse em fevereiro.
Médio prazo: o mandato de 2027 a 2030
Do lado europeu, o Parlamento Europeu pediu em janeiro um parecer do TJUE sobre o acordo e ainda precisa dar o consentimento final, sem prazo definido. A ratificação dos pilares político e de cooperação por todos os países da UE também não tem previsão. Até lá, o acordo é aplicado de forma provisória. Em dezembro de 2025, Conselho e Parlamento Europeu chegaram a acordo sobre um regulamento de salvaguardas bilaterais, voltado a produtos agrícolas sensíveis.
Em qualquer cenário, o acordo reduz tarifas e amplia o acesso a mercados, mas não elimina divergências sobre agricultura, clima, subsídios e origem dos produtos. Do lado europeu, a tendência é manter os padrões ambientais, sanitários e de rastreabilidade, e uma UE pressionada por partidos conservadores pode proteger com mais rigor seus agricultores e indústrias. Em setembro, a Alternativa para a Alemanha (AfD) teve 43,8% dos votos em eleição regional no leste do país, e o Reagrupamento Nacional, de Marine Le Pen, formou pela primeira vez um grupo no Senado francês.
No Brasil, o ambiente de negócios dependerá da capacidade de execução do vencedor. Um presidente com maioria legislativa poderá aprovar mudanças com mais rapidez, e um sem maioria dependerá de negociações. Lula deve preservar a prioridade para energia renovável e política industrial ligada à descarbonização, e Flávio pode ampliar o espaço para concessões, petróleo, gás e mineração.
O STF também entra na conta. Luiz Fux, Carmen Lúcia e Gilmar Mendes completam 75 anos, idade da aposentadoria obrigatória, entre 2028 e 2030, e a cadeira vazia desde a saída de Luís Roberto Barroso pode elevar para quatro o número de indicações. Cada nome precisa de 41 dos 81 votos do Senado, que em abril rejeitou a indicação de Jorge Messias, feita por Lula, a primeira rejeição desde 1894. Analistas apontam que o avanço de aliados de Bolsonaro no Senado pode afetar a composição futura do tribunal, cujas decisões alcançam contratos públicos, concessões, licenciamento ambiental e tributação.
Longo prazo: três cenários para a relação
Nos três cenários abaixo, comércio, investimentos e o acordo criaram interesses de parte a parte que tendem a preservar a cooperação. O que muda é o tom e a intensidade das divergências.
Se Lula vencer, a tendência é de maior convergência política com a UE, com defesa do acordo, ênfase em clima, multilateralismo e transição energética e busca de investimentos europeus em infraestrutura, energia limpa e indústria. As disputas comerciais sobre agricultura, barreiras técnicas e sustentabilidade permaneceriam.
Se Flávio vencer e formar uma base funcional no Congresso, o governo poderia priorizar concessões, investimento privado, segurança energética e revisão de regulações. A relação comercial com a Europa provavelmente seria mantida, porque o Brasil tem interesse em ampliar exportações e atrair capital, mas com mais resistência a exigências ambientais e maior aproximação com os Estados Unidos. O ponto em aberto é se um governo do PL trataria exigências como as de rastreabilidade e combate ao desmatamento como parte do acordo ou como barreiras externas à competitividade brasileira.
Se o vencedor tiver governabilidade limitada, com dificuldade para negociar com o Congresso, os governadores ou o STF, o principal risco para as empresas não seria uma orientação ideológica específica, mas a instabilidade regulatória e a demora nas decisões.




