A Football Supporters Europe (FSE) e a Euroconsumers apresentaram uma queixa formal à Comissão Europeia contra a FIFA. A alegação é de que a entidade máxima do futebol está abusando de sua posição monopolista no esporte para impor preços muito altos nos ingressos, além de “condições e processos de compra obscuros e injustos aos torcedores europeus” em relação ao Mundial de 2026.
O site oficial da FIFA encerrou a fase de vendas de ingressos em fevereiro último já prevendo nova fase de comercialização a partir deste 2 de abril, controlando rigidamente o processo. Lá é possível ler:
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As reclamações dos torcedores europeus fazem sentido. No site da FIFA, embora indisponível no momento, um ingresso para o primeiro jogo do Brasil na Copa do Mundo, contra o Marrocos no dia 13 de junho, está estimado em US$ 2.900 (o equivalente a R$ 15,2 mil), valor sem dúvida alto mesmo considerando que ele inclui o usufruto de um lounge luxuoso no dia do jogo.
A FIFA detém o monopólio da venda de ingressos para a Copa do Mundo de 2026 e tem usado essa condição para determinar unilateralmente todas as condições de comercialização de ingressos, algo que segundo a Football Supporters Europe (FSE) e a Euroconsumers jamais aconteceria em um mercado competitivo.
As duas entidades apontam aquilo que consideram seis abusos específicos por parte da FIFA:
- Preços exorbitantes: os ingressos estão muito mais caros do que em edições anteriores do Mundial de futebol. Os valores mais baixos disponíveis para a final da Copa do Mundo de 2026 começam em US$ 4.185 – mais de sete vezes o preço do ingresso mais barato para a final da Copa do Mundo de 2022. Em contraste, os ingressos mais baratos para a final da Eurocopa de 2024 custam € 95 (aproximadamente US$ 100). Os documentos da candidatura da FIFA para a competição deste ano previam um preço médio de US$ 1.408 por ingresso, mas esse valor, como se vê, já ficou para trás.
- Propaganda enganosa: ingressos populares no valor de 60 dólares inicialmente anunciados para a fase de grupos praticamente não foram disponibilizados, sendo que os poucos de fato oferecidos se esgotaram rapidamente, o que configuraria uma ilegal propaganda enganosa pelas regras de defesa do consumidor na União Europeia.
- Preços dinâmicos descontrolados: ingressos remarcados continuamente, aviso prévio, a partir do conceito de “preços dinâmicos” determinado pela FIFA. Torcedores não tinham como saber o preço final antes de entrar na fila.
- Regras de opacidade: falta estrutural de transparência, impedindo que torcedores tenham uma ideia exata dos mapas dos estádios e da localização exata de seus assentos, e até mesmo dos times que jogarão naqueles locais no momento da compra. Argumento: torcedores estão gastando milhares de dólares sem saber o que estão comprando – e a possibilidade de reembolso é limitada ou inexistente.
- Táticas de venda sob pressão: processo agressivo de vendas gera no interessado o medo de perder a oportunidade de compra. Um exemplo são os e-mails enviados aos torcedores alertando para “acesso exclusivo” a uma quantidade “limitada” de ingressos, um cenário irreal. “Ao criar uma urgência artificial, a FIFA pressionou os torcedores a tomarem decisões precipitadas”, alegam Football Supporters Europe (FSE) e a Euroconsumers.
- Uma dupla vitória: essa queixa das duas entidades europeias de fãs do futebol diz respeito ao fato de a FIFA desencorajar o uso das plataformas de revenda de ingressos por considerá-las “inseguras”. Assim, ela direciona os torcedores para seu próprio mercado, onde tanto o comprador quanto o vendedor pagam uma taxa de 15%, aumentando significativamente o custo total para os torcedores. “Em um ingresso de US$ 800, a FIFA arrecada US$ 240 a mais além do preço original de venda”, argumentam.
A Euroconsumers e a FSE apelam à Comissão Europeia para que aja de imediato e ordene à FIFA que deixe de usar preços dinâmicos para todos os ingressos vendidos a torcedores do continente durante a próxima fase de vendas, além de divulgar com pelo menos 48 horas de antecedência o número de ingressos ainda disponíveis em cada categoria, bem como a localização exata desses assentos nos estádios.
O documento diz ainda: “O futebol é uma paixão universal, mas a FIFA está tratando-o como um luxo privado, explorando seu monopólio absoluto sobre a venda de ingressos para a Copa do Mundo. Ao impor preços opacos, práticas obscuras para pressionar os compradores e taxas de revenda exorbitantes, a FIFA está colocando um fardo financeiro injusto sobre milhões de torcedores europeus. Apelamos à Comissão Europeia para que intervenha imediatamente com medidas provisórias para interromper essas práticas exploratórias antes do início do torneio de 2026”, afirmou Marco Scialdone, chefe do departamento jurídico da Euroconsumers.






