
A Espanha, que fornece cerca de um quarto das frutas e hortaliças frescas consumidas na Europa, teve em 2026 o verão mais quente desde pelo menos 1869, de acordo com a Agência Estatal de Meteorologia (Aemet). A temperatura média ficou 2,4 °C acima da referência de 1991 a 2020, e a chuva chegou a 56% do normal. Julho foi o mais quente da série histórica e o mais seco desde que há registros.
O prejuízo agrícola foi estimado em setembro, depois de reunião de ministros da Agricultura do bloco. O comissário europeu da área, Christophe Hansen, falou em perdas de 14 bilhões a 17 bilhões de euros com o calor, a seca e os incêndios do verão, em avaliação preliminar. Segundo ele, só 12% da produção agrícola da União Europeia está segurada contra danos.
As represas espanholas chegaram a outubro com 58,3% da capacidade, acima do nível de um ano antes, segundo o Ministério para a Transição Ecológica e o Desafio Demográfico. O volume armazenado, de cerca de 32,7 trilhões de litros, é 33 vezes o que o Sistema Cantareira, principal manancial da Grande São Paulo, guarda quando está cheio. O nível, porém, cai de uma semana para outra: na mais recente, as represas perderam 517 bilhões de litros, pouco mais da metade da capacidade do Cantareira.
Um exemplo é Doñana, área úmida no sudoeste do país protegida pela Unesco. As chuvas elevaram a marisma, planície que alaga no inverno, ao maior nível de inundação desde 2010, mas só 36% das lagoas chegaram a inundar em 2025, segundo a Estação Biológica de Doñana, ligada ao Conselho Superior de Pesquisas Científicas (CSIC), principal órgão público de pesquisa do país. Os pesquisadores atribuem o resultado à falta de recarga do aquífero, explorado há décadas para irrigação agrícola. O diretor da estação, Eloy Revilla, afirma que a melhora do inverno interrompeu a deterioração, mas não a reverteu: “Não podemos desenhar políticas de gestão da água com base em anos excepcionais”.
A resposta de Bruxelas veio no discurso anual sobre o Estado da União, feito em setembro no Parlamento Europeu. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, chamou o verão de “verão da verdade”, anunciou uma nova iniciativa europeia para a água e uma aliança para ampliar o seguro contra desastres climáticos. Segundo ela, as redes de abastecimento do continente perdem quase um em cada quatro litros, sobretudo por vazamentos.
A Estratégia Europeia de Resiliência Hídrica, lançada em 2025, já pede aos países do bloco ganho de pelo menos 10% na eficiência do uso da água até 2030. Hansen defendeu mais investimento em armazenamento de água e em irrigação de precisão, além de seguro obrigatório para os agricultores. A Comissão deve apresentar ainda em outubro um marco de resiliência climática que prevê identificar os cem territórios mais vulneráveis da Europa.
Em paralelo, a parte comercial do acordo entre o Mercosul e a União Europeia é aplicada provisoriamente desde maio entre o bloco europeu e os países sul-americanos que concluíram a ratificação, caso de Argentina, Brasil e Uruguai, segundo a Comissão Europeia. Pelo texto, de acordo com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), entidade que representa os produtores rurais do país, frutas como abacate, limão, melão, melancia, uva de mesa e maçã terão as tarifas de importação eliminadas, sem cotas de volume.
A lista inclui frutas que a Espanha vende ao continente. Em 2025, o país exportou 12 milhões de toneladas de frutas e hortaliças frescas, no valor de 18,7 bilhões de euros, segundo a Federação Espanhola de Associações de Produtores Exportadores de Frutas, Hortaliças, Flores e Plantas Vivas (Fepex), e 18,2 bilhões de euros tiveram a Europa como destino. Só de melancia, uma das frutas com tarifa zero, foram 820 mil toneladas, no valor de 604 milhões de euros.
Para o Brasil, a União Europeia foi, em 2025, o segundo principal destino do agronegócio, com 14,9% do total exportado, ou US$ 25,2 bilhões, segundo a CNA, que vê nas frutas espaço para diversificar uma pauta concentrada em soja, café, celulose, suco de laranja e carnes.
Os europeus mantêm proteção para o setor. A Comissão Europeia afirma que o acordo protege agricultores, consumidores e normas ambientais do bloco, e o Parlamento Europeu aprovou um regulamento de salvaguardas agrícolas. Pelas regras, a Comissão pode abrir investigação quando as importações de produtos sensíveis, entre eles frutas cítricas, aumentarem 5% em média ao longo de três anos e, ao mesmo tempo, os preços de importação forem 5% inferiores ao preço interno. Se um aumento repentino das importações prejudicar os produtores europeus, ela pode suspender temporariamente as preferências tarifárias. Os cítricos, que lideram as exportações espanholas de frutas, estão na lista.




