
Numa cidade industrial no norte da Holanda, engenheiros testam cápsulas que deslizam por tubos de baixa pressão suspensas por campos magnéticos. Em Veneto, o governo regional italiano anuncia que não se trata mais de uma visão futurista, mas de “um projeto concreto que está entrando em fase operacional”. Em Berlim, a nova coalizão de governo incluiu uma rota piloto de hyperloop no próprio acordo de coalizão. O que até poucos anos atrás era tratado como ficção científica cara e improvável começa a ganhar a consistência política e técnica que antecede grandes transformações na infraestrutura de transportes.
A promessa central do hyperloop é simples e radical ao mesmo tempo: cápsulas de passageiros viajando a até 700 km/h dentro de tubos com pressão de ar reduzida, suspensas por levitação magnética, sem atrito, sem emissões diretas e praticamente sem interferência climática. Paris a Amsterdã em menos de 40 minutos. Lisboa a Madri em pouco mais de meia hora. Uma geometria continental completamente redesenhada.
O marco mais concreto da maturidade europeia no setor veio em setembro de 2025, quando a holandesa Hardt Hyperloop completou um teste recorde no European Hyperloop Center, em Veendam, atingindo 85 km/h e realizando com sucesso uma manobra de troca de faixa entre tubos paralelos, considerada função crítica para a escalabilidade de redes hyperloop. O feito pode parecer tímido ante a promessa de 700 km/h, mas o salto técnico é considerável. Desde o primeiro teste bem-sucedido na instalação, a Hardt realizou mais de 750 missões de teste, que levaram a diversas inovações, incluindo um mecanismo de troca de faixa sem partes móveis e um sistema de levitação magnética mais seguro. A empresa também reduziu o peso dos bogies em 45% e aumentou o impulso em 50%.
A troca de faixas controlada exclusivamente por campos magnéticos resolve um dos dilemas históricos do hyperloop: como criar redes complexas, e não apenas conexões ponto a ponto, que são economicamente inviáveis. A empresa afirma que o hyperloop é a única solução acionável e sustentável para substituir os voos de curta distância em trajetos superiores a 500 km, com eficiência 90% superior à aviação e custos operacionais menores do que ferrovias de alta velocidade convencionais.
Itália constrói, Alemanha se compromete
A Holanda não está sozinha. Na região italiana de Veneto, a construção da primeira pista de testes de hyperloop com 10 km entre Pádua e Veneza foi anunciada após a conclusão de um estudo completo de viabilidade. O consórcio Hyper Builders, formado pela americana HyperloopTT, pela Webuild e pela Leonardo, lidera o projeto com partes da infraestrutura previstas para estar operacionais em 2030. A Hyperloop Italia estima um investimento de até 800 milhões de euros para a linha de demonstração.
A Alemanha incluiu uma rota piloto de hyperloop em seu acordo de coalizão, sinalizando que o tema deixou o vocabulário dos laboratórios e entrou na pauta da política de infraestrutura nacional. Espanha também tem iniciativas em curso, com a empresa Zeleros aderindo formalmente ao Hyperloop Development Program europeu no fim de 2025.
A corrida, porém, não é exclusivamente europeia. A China tem como meta lançar um corredor de hyperloop totalmente operacional entre Xangai e Guangzhou até 2035, com testes já acima de 600 km/h. A Índia avalia ativamente rotas piloto.
No Brasil, a presença da tecnologia já tem endereço. A HyperloopTT mantém escritório em São Paulo, de onde acompanha o desenvolvimento de um projeto que pode tornar o país pioneiro na América Latina. A empresa assinou acordo com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul para estudos de viabilidade de uma rota entre Porto Alegre e a Serra Gaúcha, um trajeto de 135 km que hoje leva cerca de 1h40 de carro e poderia ser percorrido em aproximadamente 12 minutos em velocidade de cruzeiro. A distância entre São Paulo e o Rio de Janeiro, por sua vez, seria coberta em torno de 25 minutos numa rede operacional.
O fosso entre o entusiasmo e a viabilidade
Toda essa efervescência convive com ceticismo legítimo. Nenhum desenvolvedor projeta corredores comerciais operacionais antes de 2035 a 2040. A ausência de um marco regulatório harmonizado na União Europeia é apontada como risco real: sem padrões comuns, os Estados-membros podem desenvolver abordagens incompatíveis, inviabilizando a interoperabilidade transfronteiriça que dá sentido ao projeto continental. A Comissão Europeia reconheceu o problema, prevendo que uma estrutura de certificação específica só começaria a ser construída entre 2030 e 2040.
Pesquisas realizadas na Holanda indicam que a intenção de uso permanece baixa, sobretudo pelo desconforto psicológico de viajar em uma cápsula selada da qual não é possível sair em emergências. Os engenheiros reconhecem o problema como real, mas solucionável com tempo e design adequado. Os custos de capital são o argumento mais pesado dos céticos. Uma rede europeia completa de hyperloop custaria cerca de 981 bilhões de euros segundo estimativas do Hyperloop Development Program, valor que críticos argumentam renderia retornos muito mais rápidos se investido na expansão ferroviária convencional.





