
A União Europeia caminha para encerrar a temporada de reposição de gás natural com reservatórios preenchidos a cerca de 76% da capacidade, o que representaria o menor patamar desde 2011, segundo projeções da consultoria Wood Mackenzie citadas pelo Financial Times. O dado, que parecia improvável há apenas dois anos, quando o bloco mantinha seus estoques confortavelmente acima de 90%, expõe as fragilidades de uma estratégia energética que trocou a dependência de gasodutos russos pela dependência crescente do gás natural liquefeito americano.
O cenário ganha contornos mais preocupantes quando observado em perspectiva. No início de abril de 2026, os reservatórios europeus estavam preenchidos a apenas 28% da capacidade, patamar significativamente inferior ao registrado nos três anos anteriores. O motivo imediato foi um inverno particularmente rigoroso, que drenou as reservas muito além do habitual. Segundo a Gas Infrastructure Europe, os estoques médios do bloco giram atualmente em torno de 48%.
Para compreender o quadro atual, é preciso olhar além da meteorologia. A guerra entre Estados Unidos e Irã interrompeu embarques de GNL pelo Estreito de Ormuz, rota por onde normalmente passa um quinto da oferta mundial do combustível, e reduziu a produção do Catar e dos Emirados Árabes Unidos. A combinação desses fatores contraiu a oferta global justamente quando a Europa precisava recompor seus reservatórios.
A Comissão Europeia, por sua vez, busca transmitir calma. Em reunião do Grupo de Coordenação de Gás realizada em abril, a instituição e os governos dos países membros confirmaram que não foram observados riscos imediatos ao abastecimento e que a infraestrutura europeia é capaz de reabastecer os estoques a pelo menos 80% até novembro. O comissário europeu para Energia, Dan Jørgensen, orientou os países a utilizarem as flexibilidades previstas na regulamentação de estoques e a considerarem a redução da meta de preenchimento para 80%, de modo a dar mais previsibilidade ao mercado e evitar compras de última hora que pressionem os preços.
A proposta de relaxar a meta não é desprovida de lógica. Formuladores de política europeus avaliam que uma meta obrigatória de 90% em um ambiente de oferta restrita força os compradores a competir agressivamente por volumes limitados de gás, o que por si só eleva os preços. Tom Marzec-Manser, diretor de gás europeu e GNL da Wood Mackenzie, projeta que os preços podem recuar nos próximos meses com o aumento das entregas do Golfo Pérsico, mas alerta que a tendência de alta deve retornar conforme o inverno se aproxima, especialmente diante de um cenário de frio intenso no início de 2027.
A questão da dependência energética é talvez o elemento mais relevante dessa equação. Segundo o Instituto de Economia Energética e Análise Financeira (IEEFA), os Estados Unidos devem fornecer dois terços das importações europeias de GNL em 2026 e poderão alcançar 80% até 2028. No primeiro trimestre deste ano, o gás americano já representava 63% das importações europeias de GNL, contra 57% no mesmo período do ano anterior. A Rússia, apesar das sanções e do plano de eliminação gradual, permanece como segundo maior fornecedor, respondendo por 13% das importações de GNL no mesmo período.
Ana Maria Jaller-Makarewicz, analista principal do IEEFA para a Europa, resumiu o dilema de forma contundente ao observar que a mudança do gás por gasoduto para o GNL deveria ter proporcionado segurança de abastecimento e diversificação, mas as perturbações causadas pela guerra no Oriente Médio e a dependência excessiva do GNL americano demonstraram que essa estratégia não cumpriu nenhum dos dois objetivos. Na média, o GNL americano é o mais caro para os compradores europeus.
O cronograma regulatório adiciona outra camada de pressão. Em janeiro de 2026, o Conselho da UE adotou um regulamento que proíbe importações de GNL e gás por gasoduto da Rússia, com períodos de transição para contratos existentes e eliminação total até o final de 2027. Paradoxalmente, as importações europeias de GNL russo atingiram recorde trimestral nos primeiros três meses de 2026, impulsionadas por entregas à França, Espanha e Bélgica. Os países da UE gastaram 6,7 bilhões de euros em GNL russo apenas em 2025.
A Europa inicia a temporada de injeção de gás de 2026 com o menor volume armazenado desde 2018, em torno de 31 bilhões de metros cúbicos (bcm), diante de uma capacidade total de 110 bcm. A perda da maior parte do gás russo por gasoduto desde 2022 e a interrupção das exportações do Catar tornam praticamente impossível alcançar o ritmo recorde de injeção registrado naquele ano.
O que se observa é uma Europa energeticamente mais vulnerável do que em qualquer momento desde o choque provocado pela invasão da Ucrânia em 2022, porém estruturalmente mais preparada em termos de infraestrutura. O IEEFA projeta que o continente vai instalar ou expandir seis terminais de GNL em 2026, aumentando a capacidade de importação em 24% até 2030. Ao mesmo tempo, o consumo europeu de gás caiu mais de 19% entre 2021 e 2024, segundo o Conselho Europeu.




