
A tensão entre Bruxelas e as grandes plataformas americanas de redes sociais sempre produziu muito ruído regulatório e poucas alternativas concretas. Nesta quinta-feira, um grupo de empreendedores, tecnólogos e ativistas europeus decidiu mudar isso.
O lançamento oficial da Eurosky, iniciativa sediada nos Países Baixos, não entrega ao continente uma nova rede social para competir com o Instagram ou o X. Entrega algo mais fundamental: uma identidade digital única para cada usuário, com dados hospedados em servidores europeus e sob a proteção integral da legislação da União Europeia. A aposta é que, ao controlar essa camada de infraestrutura, a Europa possa finalmente criar condições para que um ecossistema local floresça, em vez de depender indefinidamente das regras e humores de empresas californianas.
A Eurosky foi construída sobre um protocolo de código aberto, o mesmo que dá vida ao Bluesky, rede social que já ultrapassa 40 milhões de usuários globais e que ganhou tração justamente entre quem busca uma alternativa ao X de Elon Musk. A lógica é diferente da que governa as plataformas tradicionais: em vez de concentrar hospedagem, moderação e curadoria de conteúdo nas mãos de uma única empresa, o modelo distribui essas funções, abrindo espaço para maior competição e pluralidade. Na prática, isso significa que o usuário carrega sua identidade digital e seus dados de uma aplicação para outra, sem estar preso a nenhuma plataforma específica.
“A parte social foi removida cirurgicamente pela Big Tech. A verdadeira oportunidade aqui é trazer o social de volta para as redes sociais”, disse Sebastian Vogelsang, cofundador da Eurosky e CEO do Flashes, rival do Instagram construído sobre o Bluesky.
Um mercado avaliado em 50 bilhões de euros por ano
O argumento da Eurosky não é apenas político. É econômico. Cerca de 25 bilhões de euros anuais são drenados da Europa via receitas publicitárias em redes sociais, e outros 25 bilhões por meio de anúncios em buscadores, alimentando novos monopólios em cloud e inteligência artificial. A organização quer que, até 2030, metade desse mercado seja construído sobre tecnologia europeia.
O contexto regulatório dá combustível à iniciativa. Em dezembro de 2025, a Comissão Europeia multou o X em 120 milhões de euros por descumprimento da Lei de Serviços Digitais, a primeira punição aplicada sob essa legislação. A sanção foi repartida em três frentes: 45 milhões de euros pela utilização enganosa do selo de verificação azul, 35 milhões pelas falhas no repositório de anúncios e 40 milhões pela restrição ao acesso de pesquisadores aos dados da plataforma. Pouco depois, o chatbot Grok gerou imagens de nudez falsas e não consentidas, levando cerca de 50 eurodeputados a pedirem abertamente à Comissão que “construa já redes sociais europeias”. A janela política, ao que tudo indica, nunca esteve tão aberta.
A Eurosky não esconde que ainda tem um caminho considerável pela frente. Hoje, a iniciativa ainda depende parcialmente dos sistemas de moderação de conteúdo do próprio Bluesky, uma empresa americana. Enquanto isso não mudar, a soberania europeia que a Eurosky promete será, no mínimo, incompleta. A organização afirma ter um roteiro para a independência total, que inclui um sistema compartilhado de moderação licenciável para desenvolvedores europeus. Outra limitação do modelo atual é que toda a informação é pública. A introdução de dados privados está prevista para ainda em 2026, o que abriria espaço para comunidades locais e casos de uso ainda inviáveis hoje.
O financiamento vem da campanha Free Our Feeds e de contribuições de fundações. A Modal Foundation, sem fins lucrativos e com sede na Europa, abriga a iniciativa com foco em modelos que priorizem o interesse público sobre o comercial. O grupo inclui nomes como Robin Berjon, ex-estrategista de dados do New York Times. Os primeiros servidores de dados pessoais foram disponibilizados a usuários pré-registrados em fevereiro.
Construir uma alternativa real às plataformas que acumulam bilhões de usuários, décadas de dados comportamentais e modelos publicitários consolidados é uma tarefa de escala histórica. A Eurosky oferece, por ora, uma fundação técnica sólida e uma narrativa política convincente. Se isso será suficiente para mudar os hábitos de uma geração acostumada à conveniência das Big Tech é uma pergunta que o continente ainda está aprendendo a fazer.






