
O continente europeu tornou-se em 2025 o principal motor de um rearmamento desde o fim da Guerra Fria. Os gastos militares mundiais atingiram US$ 2,887 trilhões, o 11º ano consecutivo de crescimento, elevando o peso militar para 2,5% do PIB, o nível mais alto desde 2009, segundo dados do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI), divulgados nesta segunda-feira (27). Os gastos no continente subiram 14%, para US$ 864 bilhões, no maior crescimento anual registrado na Europa Central e Ocidental em mais de sete décadas.
A Alemanha concentra parte relevante dessa transformação. Berlim aumentou seus gastos em 24% em relação ao ano anterior, chegando a US$ 114 bilhões, e ultrapassou pela primeira vez desde 1990 o limiar de 2% do PIB exigido pela OTAN, atingindo 2,3%. O feito foi possível, em parte, pela reforma das regras fiscais alemãs que passou a isentar gastos militares acima de 1% do PIB do rígido freio constitucional à dívida. A Espanha também registrou salto expressivo, de 50%, chegando a US$ 40,2 bilhões e superando o patamar de 2% do PIB pela primeira vez desde 1994. Polônia e Itália registraram altas de 23% e 20%, respectivamente.
Os 29 membros europeus da OTAN gastaram conjuntamente US$ 559 bilhões em 2025, e 22 deles atingiram ao menos 2% do PIB em defesa. Há poucos anos, esse número era menos da metade. A pressão de Washington para que os aliados assumissem maior parcela dos custos da aliança acelerou o processo, mas analistas do SIPRI ressaltam que a motivação europeia vai além da pressão americana. “Em 2025, os gastos militares dos membros europeus da OTAN cresceram mais rapidamente do que em qualquer momento desde 1953, refletindo a busca contínua pela autossuficiência europeia ao lado da pressão crescente dos Estados Unidos para fortalecer o compartilhamento de encargos dentro da aliança”, disse Jade Guiberteau Ricard, pesquisadora do SIPRI.
O conflito na Ucrânia permanece uma variável central. A Rússia elevou seus gastos em 5,9%, chegando a US$ 190 bilhões, com uma carga militar equivalente a 7,5% do PIB. A Ucrânia, sétima maior gastadora do mundo em 2025, aumentou seus dispêndios em 20%, para US$ 84,1 bilhões, o equivalente a 40% do PIB. São proporções que espelham uma economia de guerra em pleno funcionamento. “Em 2025, os gastos militares como proporção dos gastos governamentais atingiram o nível mais alto já registrado tanto na Rússia quanto na Ucrânia”, disse Lorenzo Scarazzato, pesquisador do SIPRI. “É provável que seus gastos continuem crescendo em 2026 se a guerra prosseguir, com as receitas das vendas de petróleo da Rússia em alta e um importante empréstimo da União Europeia previsto para a Ucrânia.”
No plano mundial, os Estados Unidos mantiveram a liderança absoluta, com US$ 954 bilhões, apesar de uma queda de 7,5% em relação a 2024, explicada pela não aprovação de novos pacotes de ajuda militar à Ucrânia. A redução, porém, tende a ser efêmera. “Os gastos aprovados pelo Congresso dos EUA para 2026 já ultrapassaram US$ 1 trilhão, um aumento substancial em relação a 2025, e podem chegar a US$ 1,5 trilhão em 2027 se a última proposta orçamentária do presidente Trump for aceita”, disse Nan Tian, diretor do programa de gastos militares do SIPRI.
Os 32 membros da OTAN gastaram juntos cerca de US$ 1,6 trilhão em 2025, o equivalente a 55% do total mundial. Um dado que ilustra a profundidade da assimetria que define a aliança e que, paradoxalmente, a pressão americana ajudou a começar a corrigir.




