
A confirmação da Alemanha de que um drone com explosivos encontrado em agosto no aeroporto de Leipzig foi controlado por agentes ligados a Moscou marca uma mudança de postura na Europa. Depois de meses registrando incidentes sem apontar autoria, o governo alemão decidiu nomear a Rússia publicamente e elevou o nível de alerta do país de “geral” para “alto”. O episódio acelera um movimento que já estava em curso havia meses: a construção de um sistema europeu de defesa contra drones e sabotagens, negociado entre Bruxelas e a OTAN.
Segundo o ministro do Interior alemão, Alexander Dobrindt, o artefato encontrado em Leipzig tinha configuração, componentes e detonador compatíveis com outras operações atribuídas à Rússia. “Não estamos em guerra, mas somos um alvo diário da guerra híbrida”, disse ele em entrevista coletiva, de acordo com reportagem da CNN Brasil. A Alemanha respondeu fechando o consulado russo em Bonn e a Casa Russa de Ciência e Cultura em Berlim, além de restringir vistos a cidadãos russos e propor mais sanções à chamada frota fantasma usada por Moscou para driblar o embargo ao petróleo.
A reação teve apoio imediato de outras capitais. Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, e Mark Rutte, secretário-geral da OTAN, manifestaram solidariedade à Alemanha, assim como os governos de França, Polônia, Itália, Reino Unido, Suécia, Tchéquia e Estônia. O padrão de resposta coletiva já existia: no ano passado, Polônia e Estônia recorreram ao artigo 4º do Tratado do Atlântico Norte após violações de espaço aéreo por drones e caças russos, mecanismo que não era acionado desde a invasão da Ucrânia.
O caso alemão se soma a uma engrenagem institucional mais ampla que a Europa vem montando. A OTAN mantém desde o ano passado as missões Baltic Sentry, voltada à proteção de cabos submarinos, e Eastern Sentry, criada após incursões de drones e aeronaves russas em países aliados. A União Europeia avança paralelamente com o projeto de um “muro de drones” e a iniciativa Eastern Flank Watch, que devem reunir radares, defesa antiaérea e vigilância marítima ao longo da fronteira leste do bloco, com capacidade operacional inicial prevista para o fim deste ano. O projeto dialoga com a Drone Alliance with Ukraine, para a qual von der Leyen anunciou um fundo de 6 bilhões de euros, formado com juros de ativos russos congelados, destinado à produção de drones ucranianos.
Um levantamento do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos mostra a dimensão do problema: operações de sabotagem atribuídas à Rússia contra infraestrutura europeia quase quadruplicaram entre 2023 e 2024. Só no Reino Unido, foram 266 sobrevoos de drones suspeitos registrados no último ano perto de bases aéreas usadas por forças americanas, uma média de mais de cinco por semana. Aeroportos como Copenhague, Oslo e o polo logístico polonês de Rzeszów tiveram operações suspensas por episódios parecidos, e rupturas de cabos no mar Báltico seguem sob suspeita de ação russa.
Moscou nega qualquer envolvimento no caso de Leipzig. O presidente Vladimir Putin classificou a acusação alemã como fabricação de provas e disse que Berlim busca desviar a atenção de problemas internos do governo de Friedrich Merz. Já autoridades de defesa americanas na Europa haviam avaliado, antes mesmo do anúncio alemão, que o drone pertencia a um serviço de inteligência russo.




