Europa precisa reinventar seu modelo econômico antes que a demografia feche a janela

04 de março de 2026 4 minutos
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Kyriakos Pierrakakis, presidente do Eurogroup, lançou nesta quarta-feira um alerta direto sobre o futuro econômico do continente: o modelo que sustentou décadas de prosperidade europeia está esgotado, e a União Europeia precisa reinventar sua lógica de crescimento antes que a demografia torne qualquer resposta tardia demais.

Em conferência organizada pelo Banco Europeu de Investimento, Pierrakakis advertiu que a Europa enfrenta fortes ventos contrários em termos demográficos e que, até 2040, sua força de trabalho – atualmente em torno de 200 milhões de pessoas – poderá diminuir em cerca de dois milhões de pessoas por ano.

A lógica por trás do alerta é simples, mas suas implicações são profundas. Durante décadas, o crescimento do PIB europeu foi sustentado em grande parte pela expansão da oferta de mão de obra, seja por crescimento demográfico natural, seja pela incorporação de novos países ao bloco. Esse vetor está se invertendo. “O crescimento não pode mais depender da expansão da oferta de trabalho. Ele deve vir de uma maior produtividade. E uma maior produtividade vem da inovação, do investimento e da alocação eficiente de capital”, afirmou Pierrakakis.

A solução apontada pelo presidente do Eurogroup, órgão que reúne os ministros das Finanças da zona do euro, passa pela mobilização das poupanças dos europeus, hoje em grande parte estacionadas em depósitos bancários de baixo rendimento. Estima-se que cerca de 10 trilhões de euros em poupanças das famílias europeias estejam retidos em depósitos bancários de baixo retorno, em vez de serem canalizados para mercados de capitais onde poderiam financiar o crescimento de empresas e a economia real.

O mecanismo pelo qual esse capital deveria fluir tem nome e sobrenome: a União de Poupança e Investimento (Savings and Investment Union, ou SIU). Lançada formalmente em março de 2025, a SIU é a sucessora da Capital Markets Union e tem como objetivo criar um mercado único de capitais e serviços bancários em toda a UE. ICMA No entanto, apesar do amplo apoio de tecnocratas e mercados financeiros, os avanços concretos até agora têm sido limitados, o que é ilustrado pelo fato de que a própria união bancária europeia, lançada após a crise de 2008, ainda permanece incompleta.

O diagnóstico de Pierrakakis ecoa, com urgência renovada, o relatório Draghi de 2024, que estimou a necessidade de investimentos adicionais de 750 a 800 bilhões de euros por ano até 2030 para fechar o gap de competitividade europeu em relação aos Estados Unidos e à China. O FMI projeta que a UE responderá por apenas 12,91% do PIB global em 2030, contra 20,36% da China e 13,86% dos EUA.

O contexto geopolítico conferiu nova urgência à agenda. A Comissão Europeia anunciou o plano “One Europe, One Market” com meta de mercado único integrado até o fim de 2027, e a primeira fase da SIU tem prazo de conclusão previsto para junho de 2026.

O obstáculo central, porém, não é técnico, mas político. A integração dos mercados financeiros é objetivo central da construção europeia desde os anos 1950, mas o progresso tem sido irregular, contestado e repetidamente reembalado. Interesses nacionais e diferenças regulatórias entre os 27 Estados-membros travam a criação de um ambiente em que o capital circule tão livremente quanto nos Estados Unidos.

Para Pierrakakis, eleito para o cargo em dezembro de 2025 com mandato de dois anos e meio, a janela de oportunidade é estreita. A combinação de pressão demográfica crescente, competição tecnológica externa e urgência geopolítica cria uma convergência rara de incentivos para que os Estados-membros cedam soberania em matéria financeira. Se a Europa não conseguir destravar essa alavanca nos próximos anos, o ajuste virá de outra forma: mais lento, mais doloroso e muito menos controlado.

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