
Seis em cada dez transações realizadas em território europeu passam por redes controladas por Visa, Mastercard ou PayPal, empresas sediadas nos Estados Unidos e sujeitas à legislação americana. Para mudar esse quadro, Bruxelas aposta em uma estratégia dupla: uma moeda digital pública emitida pelo Banco Central Europeu (BCE) e uma carteira privada paneuropeia chamada Wero. O problema é que as duas iniciativas avançam em velocidades muito diferentes.
Em outubro de 2025, o Conselho do BCE decidiu avançar para a próxima fase do projeto do euro digital. Partindo do pressuposto de que os co-legisladores europeus adotarão o regulamento ao longo de 2026, um projeto-piloto poderia ter início em meados de 2027, com uma potencial primeira emissão do euro digital em 2029.
O cronograma, porém, depende de uma condição ainda incerta. Em dezembro de 2025, o Conselho da UE adotou sua posição negocial sobre o pacote do euro digital, apoiando funcionalidade tanto online quanto offline e endossando limites de detenção para proteger a estabilidade financeira. Já o Parlamento Europeu segue travado. A Comissão de Assuntos Econômicos e Monetários deverá adotar uma posição somente em maio de 2026, muito além do calendário original do BCE, que previa a conclusão do processo legislativo ainda em outubro de 2025.
O impasse tem origem concreta. Bancos comerciais resistem ao projeto por temor à desintermediação, e o grupo político do relator Fernando Navarrete Rojas pressiona por um modelo mais restrito. Um estudo do próprio BCE estimou que, mesmo com um limite de detenção de 3.000 euros por usuário, o euro digital poderia provocar uma migração de depósitos da ordem de 699 bilhões de euros do sistema bancário. Sem mandato do Parlamento, não há trílogo, não há lei e o euro digital não sai do papel.
O setor privado já tem 50 milhões de usuários
Enquanto legisladores debatem, o Wero acumula tração. A carteira digital da European Payments Initiative (EPI), consórcio formado por 16 bancos europeus entre eles BNP Paribas, Deutsche Bank e ING, foi lançada em 2024 e cresceu rapidamente. Após 12 meses de operação em Bélgica, França e Alemanha, o serviço já contava com mais de 43,5 milhões de usuários registrados e havia movimentado mais de 7,5 bilhões de euros em transações entre particulares.
Em fevereiro de 2026, a EPI anunciou que o número de usuários ultrapassou 50 milhões e assinou um Memorando de Entendimento com a EuroPA para expandir pagamentos transfronteiriços, com lançamento previsto para 2026 no segmento P2P e para 2027 no comércio eletrônico e em lojas físicas. Nos Países Baixos, a migração do iDEAL para o Wero está em curso, com conclusão prevista até o final de 2027. Em dezembro de 2025, o neobank N26 assinou acordo com a EPI para integrar o Wero, com lançamento previsto para o segundo semestre de 2026 na Alemanha, França e Países Baixos.
Soberania ou retórica?
Nem todos os especialistas concordam que o problema está sendo bem enquadrado. Judith Arnal, pesquisadora sênior no CEPS e no Real Instituto Elcano, alerta para uma confusão conceitual que pode levar a respostas ineficazes. Para ela, Visa e Mastercard dominam os esquemas e a infraestrutura, mas no processamento e na aceitação a dependência de empresas não europeias é bem menor do que a narrativa dominante sugere. Apple Pay e Google Pay, por sua vez, são questões de concorrência e não de soberania.
Arnal também adverte contra o risco de que o debate se converta em retórica anti-americana indiscriminada. Confundir a administração Trump com empresas privadas americanas seria, nas suas palavras, um erro de diagnóstico com consequências práticas sérias.
Há, no entanto, um efeito colateral positivo. A pressão política em torno do euro digital teria acelerado os avanços do setor privado. “Não sei até que ponto o setor bancário estaria avançando tão depressa nesses acordos de interoperabilidade se o euro digital não estivesse em cima da mesa”, afirma a pesquisadora.
O que está em jogo em 2026
O ano de 2026 será decisivo. Líderes da zona do euro já enfatizaram a importância de concluir rapidamente o trabalho legislativo, e o BCE se prepara para uma potencial emissão em 2029, assumindo que a regulamentação necessária será aprovada ainda este ano. Se o Parlamento não entregar seu mandato negocial até o verão, o calendário entra em colapso.
O que emerge desse panorama é um ecossistema em construção com camadas complementares: o Wero para transações domésticas e intra-europeias, Visa e Mastercard para pagamentos internacionais, e o euro digital como possível rede de segurança pública lastreada pelo BCE. A soberania nos pagamentos é um objetivo legítimo. Mas entre a ambição e a execução, há um percurso legislativo que não admite atalhos.





