
Em apresentação no European Day 2026, Fabio Giambiagi destaca entraves estruturais que limitam o potencial de crescimento do país
A recuperação do crescimento econômico brasileiro nos últimos anos não foi acompanhada por uma evolução equivalente da produtividade, um dos principais indicadores da capacidade de um país de gerar riqueza de forma sustentável. “Se olharmos para a população em idade de trabalhar, veremos que ela vai crescer marginalmente e, em algum momento da década de 2030 ou 2040, começará a declinar. Isso significa que praticamente todo o crescimento do PIB nesse período terá que vir da produtividade. E, quando olhamos para o indicador nos últimos anos, naturalmente temos elementos para nos preocupar”, alerta Fabio Giambiagi, economista do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), durante o European Day 2026, evento realizado nesta quinta-feira (5), em São Paulo, pelo ICNEXT Group.
De acordo com o especialista, entre 2020 e 2025, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro cresceu, em média, 3,34% ao ano, enquanto o emprego avançou 3,62%. No mesmo período, porém, a produtividade por pessoa ocupada recuou 0,27% anualmente. Isso significa que a expansão da atividade econômica esteve associada principalmente ao aumento da ocupação, e não à capacidade de produzir mais por trabalhador.
O contraste fica ainda mais evidente quando se observa o período de 2003 a 2013. Naquela década, o PIB cresceu 4,02% ao ano, acompanhado por um avanço anual de 1,57% da produtividade. Já entre 2013 e 2020, a economia atravessou um ciclo de retração, com queda média de 0,78% do PIB ao ano e produtividade praticamente estagnada. Os dados revelam uma dificuldade persistente de sustentar taxas elevadas de crescimento.
Giambiagi avalia que esses indicadores, apesar de importantes para entender o momento brasileiro, são insuficientes para avaliar o desempenho econômico de longo prazo. Para tanto, o economista defende uma análise abarcando dez dimensões: competição e produtividade; poupança e investimento; infraestrutura; eficiência do gasto público; educação de qualidade; equilíbrio macroeconômico; instituições; segurança jurídica; regulação; e, legitimidade social associada à sustentabilidade. E o diagnóstico exposto por Giambiagi é alarmante. O Brasil apresenta deficiências em oito dessas dez dimensões e avaliações apenas intermediárias nas outras duas (equilíbrio macroeconômico e regulação).
Segundo dados do IBGE apresentados pelo economista, a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), indicador dos investimentos em máquinas, equipamentos, construções e infraestrutura produtiva, correspondeu a 16,8% do PIB em 2025. A poupança doméstica, por sua vez, ficou em 14,4%. A distância entre os indicadores evidencia as limitações da capacidade de financiamento interno da economia. Algo, de acordo com o economista, fundamental para ampliar a infraestrutura, modernizar a produção e incorporar tecnologias capazes de aumentar a produtividade.
O cenário fiscal acrescenta outra camada de complexidade. Conforme dados do Banco Central, a necessidade de financiamento do setor público alcançou, em média, 8,5% do PIB entre 2023 e 2026. Nesse mesmo período, os juros corresponderam a 7,6% do PIB, enquanto o resultado primário médio foi negativo em 0,9% do PIB. O que revela o peso dos encargos financeiros e dos desequilíbrios fiscais sobre a economia brasileira, reforçando a importância de uma trajetória sustentável das contas públicas para melhorar as condições de crescimento no longo prazo.
“Nós temos sempre nos empenhado, como país, em desmoralizar as regras. A cada governo há uma espécie de conspiração em que regras específicas conspiram contra a regra geral. O primeiro ponto [para avançar de forma sustentável] é acabar com esse exercício de autoengano nacional, em que temos uma restrição e automaticamente damos uma deixa para que ela seja driblada. Precisamos de uma restrição global que seja efetivamente uma restrição e que não admita exceções”, afirma Giambiagi.
A análise apresentada no European Day 2026 aponta, portanto, para um desafio que vai além da recuperação da atividade econômica. Para transformar crescimento em desenvolvimento duradouro, o Brasil precisa combinar estabilidade macroeconômica, maior capacidade de investimento e avanços estruturais na busca por elevar a produtividade. Tudo isso enquanto enfrenta um cenário internacional de transformações econômicas e reorganização das relações comerciais sem ter se preparado para isso com correções de rotas econômicas significativas nos últimos anos.




