
Às vésperas do quarto ano da invasão russa, cidadãos do continente demonstram contradição entre princípios e pragmatismo no conflito
Quando a Ucrânia se prepara para entrar no quinto ano de invasão em larga escala, os europeus se encontram numa posição complexa: rejeitam firmemente concessões territoriais à Rússia, mas a maioria apoia pressionar Kiev a negociar um acordo de paz, mesmo que isso implique perdas de território.
A contradição emerge de uma pesquisa da YouGov realizada em seis países europeus (Reino Unido, Alemanha, França, Espanha, Itália e Polônia) que examinou as reações públicas ao plano de paz de 20 pontos mediado pelos Estados Unidos, segundo informações da Euronews. O documento, apresentado pela primeira vez em novembro e revisado nas últimas semanas, continua sendo negociado entre Washington, Kiev e Moscou.
O presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy anunciou que Ucrânia e Estados Unidos chegaram a consenso sobre várias questões críticas destinadas a encerrar o conflito, embora questões sensíveis sobre controle territorial na região de Donbas e a gestão da usina nuclear de Zaporizhzhia permaneçam sem solução, de acordo com a Euronews.
Linhas vermelhas da opinião pública
A pesquisa mostra que europeus de todos os países concordam que o termo menos aceitável de um acordo de paz seria permitir que a Rússia mantivesse todos os territórios ucranianos que atualmente controla, cerca de um quinto da Ucrânia.
A segunda principal objeção seria forçar Kiev a limitar seu exército a 600 mil soldados, em vez dos atuais 800 mil. Os cidadãos também se opõem fortemente a impedir a Ucrânia de aderir à OTAN.
A oposição a essas três propostas (perdas territoriais, redução do exército e não adesão à OTAN) é mais forte no Reino Unido, com a Espanha também surgindo como firmemente contrária. A Itália, por outro lado, destaca-se como o país mais aberto a concessões territoriais. Os italianos são os únicos entrevistados na Europa que consideram aceitável propor que a Ucrânia entregue a região de Donbas à Rússia para encerrar a guerra.
O paradoxo europeu
Apesar da resistência a concessões específicas, os europeus permanecem divididos sobre a questão fundamental: apoiar a Ucrânia até a vitória final ou pressionar por um acordo de paz.
Entrevistados britânicos e poloneses consideram que a Europa deve apoiar a Ucrânia até a retirada da Rússia, mas a maioria dos entrevistados na Alemanha, França, Itália e Espanha afirma que apoiaria um acordo de paz, mesmo que isso implique a manutenção de partes do território ucraniano pela Rússia.
Essa divisão reflete não apenas diferenças geográficas, mas também cálculos políticos distintos. Países mais próximos da Rússia, como Polônia e Reino Unido, demonstram maior apreensão com precedentes de agressão não punida. Já nações da Europa Ocidental parecem mais inclinadas ao pragmatismo, possivelmente pesando os custos econômicos e humanitários da continuação do conflito.
Propostas europeias
No início de dezembro, líderes de 11 países europeus e da União Europeia concordaram com um plano de seis pontos. Em vez de rivalizar com a proposta americana, os dirigentes apresentaram suas ideias como complementares ao que já estava em discussão.
O plano europeu propõe um papel mais ativo do continente no futuro pós-guerra da Ucrânia, comprometendo-se a ajudar a reconstruir as forças ucranianas, proteger seus céus e apoiar operações marítimas mais seguras. No entanto, não entra em detalhes sobre a questão territorial, afirmando apenas que tais decisões “cabem ao povo da Ucrânia, uma vez que garantias de segurança robustas estejam efetivamente em vigor”.
Líderes europeus e americanos se comprometeram a trabalhar juntos para fornecer garantias de segurança robustas e medidas de apoio à recuperação econômica para a Ucrânia no contexto de um acordo para encerrar a guerra.
Na semana passada, mais de 20 países da Coalizão de Vontade se reuniram em Paris para detalhar seus compromissos de segurança com a Ucrânia. A declaração conjunta estabeleceu manter assistência militar e armamento de longo prazo às forças armadas ucranianas, que “continuarão a ser a primeira linha de defesa e dissuasão” após a assinatura de qualquer acordo de paz.
Desconfiança persistente
A pesquisa mostra que entre 45% e 72% dos europeus acreditam que a Rússia provavelmente invadirá a Ucrânia novamente dentro de 10 anos se o país concordar com um acordo de paz.
Essa desconfiança ajuda a explicar a contradição aparente na opinião pública: europeus podem favorecer negociações de paz por fadiga do conflito, mas suas objeções a concessões específicas refletem o temor de que um acordo fraco apenas adie, em vez de resolver, o problema.






