
Os europeus não deixaram de se preocupar com as mudanças climáticas. Deixaram de acreditar, em parte, que a transição verde, como vem sendo conduzida, vai melhorar suas vidas. Essa é a tensão que Bruxelas precisa resolver antes que ela se converta em recuo político.
Uma nova pesquisa internacional encomendada pela consultora britânica Mandate Research, divulgada nesta quinta-feira, mostra maiorias preocupadas com o clima em todos os dez países ouvidos: Reino Unido, Alemanha, França, Espanha, Itália, Polônia, Estados Unidos, Suécia, Países Baixos e Hungria. Mas a meta de emissões líquidas zero até 2050 aparece entre as prioridades climáticas mais baixas dos entrevistados.
A percepção de que as políticas ambientais penalizam as pessoas comuns é expressiva. Nos Países Baixos, 54% dizem que foram deixadas em pior situação, contra apenas 12% que se sentiram beneficiadas. Na Espanha, são 46%. Na Alemanha e na França, 45%. Na Hungria, 44%.
Não é necessariamente uma rejeição à descarbonização. É, sobretudo, uma reação à sensação de que o custo chegou antes do benefício e de que ele é distribuído de forma desigual entre países, setores e famílias. Entre 49% e 76% dos entrevistados, conforme o país, consideram improvável um avanço significativo rumo à neutralidade até 2050.
O dado mais estratégico da pesquisa é que a energia limpa permanece popular quando é apresentada como instrumento de soberania e alívio financeiro, e não apenas como dever climático. Em oito dos dez países, ampliar a capacidade de geração limpa foi apontada como a forma mais eficaz de reduzir os custos de energia, à frente de produzir mais combustíveis fósseis ou importar mais petróleo e gás da Rússia.
Na Hungria, 64% acreditam que a transição para renováveis reduziria as contas, contra 22% que discordam. Na Itália, os números são 55% e 22%. Os dados indicam que o apoio à energia limpa tende a aumentar quando ela é associada à redução da dependência de gás importado e à estabilidade de preços.
Bruxelas entre o alívio imediato e a meta de 2050
Essa contradição já domina a agenda europeia. Na cúpula de 15 e 16 de outubro, os líderes da União Europeia pediram medidas coordenadas, temporárias e direcionadas para conter a alta dos preços. O contexto é de forte pressão: os preços do gás subiram 140% desde o fim de fevereiro e o diesel dobrou, com custo extra estimado de 100 bilhões de euros para a Europa.
O ponto mais sensível é o ETS2, o segundo sistema europeu de comércio de emissões, que a partir de 2028 levará o preço do carbono aos combustíveis usados em edifícios e transporte rodoviário. Itália, Grécia e o Grupo de Visegrado pressionaram por adiamento, temendo impacto direto sobre motoristas e contas de aquecimento. Os países nórdicos, apoiados por Alemanha, Espanha, França, Portugal e Países Baixos, resistiram, argumentando que enfraquecer o sistema reduziria a previsibilidade necessária ao investimento.
O compromisso foi típico de Bruxelas: sem novo adiamento, mas com a Comissão Europeia obrigada a atualizar a avaliação dos impactos do ETS2, especialmente seu desenho e suas salvaguardas. Os líderes também pediram avanço na revisão da reserva de estabilidade do mercado, para conter a volatilidade excessiva dos preços do carbono.
O teste depois de 2030
Nesta quinta-feira, os ministros de Energia discutem o arcabouço energético para depois de 2030, incluindo metas de eficiência, eletrificação, interconexões, armazenamento e flexibilidade. O plano de eletrificação da Comissão prevê, de forma indicativa, dobrar a participação da eletricidade no consumo final de energia da União Europeia, de 23% para 46%, até 2040.
O debate expõe duas alianças. França e outros 14 membros da Aliança Nuclear defendem neutralidade tecnológica, com reconhecimento equivalente para nuclear e renováveis. Espanha, Portugal e Luxemburgo pressionam por uma meta específica de renováveis. A ministra sueca da Energia, Ebba Busch, resumiu a posição dos que pedem menos microgestão: fixar objetivos amplos, em vez de determinar fonte por fonte como a Europa deve montar seu sistema energético.
O cálculo político
A União Europeia não enfrenta, por enquanto, uma rejeição frontal à agenda climática. Enfrenta, sobretudo, uma crescente impaciência com o ritmo e o custo da transição. Se os eleitores passarem a associar a agenda verde apenas a tarifas mais altas, a frustração poderá fortalecer posições políticas que defendem metas mais flexíveis ou prazos mais longos.
A saída provável será uma transição mais explicitamente social: proteção para famílias de baixa renda, compensações bem desenhadas, redes e armazenamento mais rápidos, e uma narrativa centrada em energia produzida na Europa. Afinal, como reconheceu o próprio Conselho Europeu, a transição continua sendo, no longo prazo, a estratégia mais eficaz para autonomia estratégica, resiliência e redução estrutural dos preços.
O problema é que longo prazo é uma categoria cada vez mais difícil de vender a quem precisa pagar a conta no fim do mês.




