
O Rassemblement National (Reunião Nacional), partido de Marine Le Pen, conseguiu pela primeira vez eleger senadores suficientes para formar um grupo próprio no Senado francês. Foi a última votação no país antes da eleição presidencial de abril de 2027, em que Le Pen é candidata.
Para entender o resultado, vale saber como funciona o sistema. O Parlamento da França tem duas casas. A Assembleia Nacional, eleita pelo voto direto, é a mais poderosa: dá a palavra final sobre as leis e pode derrubar o governo. O Senado revisa e propõe leis, fiscaliza o governo e representa os territórios do país. Seu presidente é o segundo nome na linha de sucessão, e assume o comando do país se o cargo de presidente da República ficar vago.
O Senado não é escolhido pelo voto direto. Estavam em disputa 178 das 348 cadeiras, já que a casa renova metade de seus membros a cada três anos, para mandatos de seis anos. Cerca de 93,5 mil eleitos, em sua maioria representantes locais e regionais, estavam aptos a votar, sobretudo prefeitos e vereadores. A votação ocorreu em 63 departamentos, que são divisões administrativas parecidas com grandes municípios ou pequenos estados. Eles ficam concentrados no sul do país, e a região de Paris não votou desta vez. Por isso o resultado reflete, em boa parte, o desempenho dos partidos nas eleições municipais de março.
O RN é um partido de direita nacionalista, classificado pela imprensa e por cientistas políticos franceses como de extrema direita. Defende regras mais duras para imigração e segurança e uma relação mais distante com a União Europeia. Nos últimos anos, buscou moderar o tom para atrair outros eleitores e, desde 2024, tem a maior bancada da Assembleia Nacional. Seu aliado, a União das Direitas pela República (UDR), foi criado por Éric Ciotti, que deixou o partido tradicional da direita em 2024 depois de defender uma aliança com o RN.
Pela contagem da agência de notícias France-Presse, o RN elegeu nove senadores, que se somam aos três conquistados em 2023. A UDR fez mais dois. Juntos, somam pelo menos 14 cadeiras, cerca de 4% do total. Em 2014, quando ainda se chamava Frente Nacional, o partido havia entrado no Senado com apenas dois assentos.
O número importa porque o regimento exige no mínimo dez senadores para formar um grupo parlamentar, algo como uma bancada oficial. Com ele, o partido passa a receber mais recursos, pode pedir todos os anos a abertura de uma comissão parlamentar de inquérito e ganha lugar nas comissões que analisam e modificam os projetos de lei.
Jordan Bardella, presidente do RN, disse que o resultado marca “uma etapa no enraizamento” do partido no país. Le Pen falou em “vitória histórica”. O deputado Sébastien Chenu, vice-presidente da Assembleia Nacional pelo RN, disse que o partido teve postura responsável na Câmara e que fará o mesmo no Senado.
Apesar da novidade, o equilíbrio de forças não mudou. A direita e a centro-direita mantêm a maioria que têm desde 2014. Os Republicanos, principal partido da direita tradicional, herdeiro do campo político de presidentes como Jacques Chirac e Nicolas Sarkozy, somam 123 senadores. Seus aliados da União Centrista têm 71. O Partido Socialista, de centro-esquerda, deve continuar como a principal força de oposição.
Quem perdeu espaço foi o grupo ligado ao presidente Emmanuel Macron, de centro, que deve cair de 19 para 14 senadores. Com isso, fica praticamente do mesmo tamanho do novo bloco RN-UDR e da bancada ecologista. Macron não pode disputar a eleição de 2027, porque a Constituição proíbe um terceiro mandato consecutivo.
Gérard Larcher, dos Republicanos, preside o Senado desde 2014 e vai disputar um sexto mandato. Em mensagem no X, disse “tomar nota” do novo grupo e pediu que a casa continue sendo um espaço de debate sereno. O primeiro-ministro Sébastien Lecornu cumprimentou os eleitos e afirmou que o governo vai trabalhar com todos. Já os partidos de esquerda reagiram de outra forma: o líder dos senadores socialistas, Patrick Kanner, defendeu um “cordão sanitário”, expressão usada na França para o acordo informal de não fazer alianças com o RN.
No outro extremo do espectro político, a França Insubmissa (LFI), partido de esquerda radical fundado por Jean-Luc Mélenchon, ganhou sua primeira cadeira no Senado. O eleito é Gabriel Amard, genro de Mélenchon, pelo departamento do Rhône, na região de Lyon. Mélenchon, que vai disputar a Presidência pela quarta vez, viu no resultado um bom sinal para 2027. Ainda não está definido em qual grupo Amard vai se sentar, porque a LFI tem relação tensa com os outros partidos de esquerda.
Especialistas pedem cuidado ao projetar o resultado para a eleição presidencial. David Lees, professor de estudos franceses ouvido pelo The Independent, jornal britânico, lembrou que só eleitos locais votam, o que dá uma visão limitada do humor do eleitorado. Ainda assim, considerou relevante o fato de a extrema direita ter agora seu próprio grupo. Ele também observou que o bom resultado dos Republicanos no plano local dificilmente se repete no nacional, onde o candidato do partido, Bruno Retailleau, aparece atrás nas pesquisas.
Essas pesquisas mostram hoje a seguinte fotografia: levantamento do instituto Toluna-Harris para as emissoras RTL e M6, feito na semana passada, aponta Le Pen com 35% a 36% das intenções de voto no primeiro turno. Mélenchon aparece com 17% a 18%, e o ex-primeiro-ministro Édouard Philippe, de centro-direita, com 13% a 16%. No segundo turno, Le Pen venceria os dois.
O avanço de partidos de direita em diferentes países europeus já vem sendo acompanhado pelo Europa Brasil. No caso francês, os próximos passos são imediatos: os novos senadores tomam posse no início de outubro, quando também será eleito o presidente da casa, e os grupos entregam suas listas de membros poucos dias depois.




