
A França realizou neste domingo (15) o primeiro turno de suas eleições municipais, e os resultados reforçam uma tendência que vem moldando a política europeia há uma década: a ascensão da extrema direita do plano nacional para o local, o terreno onde, historicamente, ela sempre encontrou mais resistência.
O Rassemblement National (RN), partido fundado em 1972 sob o nome de Front National e rebatizado em 2018, é hoje a maior força da Assembleia Nacional francesa. De viés anti-imigração e eurocético, o partido é liderado por Marine Le Pen e tem em Jordan Bardella seu presidente e principal rosto institucional. Nas presidenciais de 2022, Le Pen chegou ao segundo turno com 41,5% dos votos, sua melhor marca histórica. As pesquisas de intenção de voto para 2027 colocam o RN em posição de, pela primeira vez, vencer uma eleição presidencial francesa.
As municipais deste domingo foram, portanto, mais do que uma disputa por prefeituras. Foram um termômetro.
Recordes no interior, batalha aberta nas grandes cidades
Mais de 500 listas ligadas à extrema direita obtiveram ao menos 10% dos votos, limiar necessário para avançar ao segundo turno, número que representa o dobro do registrado nas municipais de 2020 e supera o recorde anterior, de 2014. O RN e grupos aliados terminaram em primeiro lugar em ao menos 75 municípios, contra apenas 11 no primeiro turno de seis anos atrás.
A maior parte desses ganhos, porém, concentra-se em cidades com menos de 10 mil habitantes, onde o partido já vinha construindo presença há anos. A questão que domina as análises políticas é se esse avanço se converterá em vitórias nas grandes cidades no segundo turno, marcado para 22 de março.
A disputa mais simbólica ocorre em Marselha, segunda maior cidade do país, com 870 mil habitantes. O atual prefeito socialista Benoît Payan lidera o primeiro turno com 36,7% dos votos, à frente do candidato do RN, Franck Allisio, com 35%. Dois outros candidatos também avançam ao segundo turno, um de extrema esquerda com 11,9% e um de centro-direita com 12,4%, tornando o resultado imprevisível. A segurança é a principal prioridade dos eleitores, em linha com o discurso de lei e ordem que o RN tem cultivado numa cidade historicamente marcada por violência urbana.
Em Nice, quinta maior cidade da França, Éric Ciotti, líder do partido UDR e aliado do RN, terminou bem à frente do veterano prefeito Christian Estrosi. Em Perpignan, até agora a única cidade francesa com mais de 100 mil habitantes governada pelo RN, o prefeito Louis Aliot foi reeleito já no primeiro turno.
Abstenção como sinal de alerta
Os números de participação merecem atenção. A taxa de comparecimento ficou entre 56% e 58,5%, inferior aos 63,55% registrados nas municipais de 2014. François Kraus, do instituto de pesquisas IFOP, classificou o resultado como um mínimo histórico da Quinta República. Analistas da Ipsos BVA alertaram para uma apatia crescente que “não é boa notícia para a democracia francesa”. O dado importa porque a abstenção tende a beneficiar partidos com eleitorado mais mobilizado, e o RN tem sistematicamente demonstrado maior capacidade de levar seus simpatizantes às urnas.
O xadrez das alianças
O período entre os dois turnos será politicamente intenso. Os partidos têm até terça-feira às 18h para negociar alianças e apresentar listas definitivas às autoridades locais. O RN já sinalizou o tom: Bardella convocou a cooperação com o que chamou de “listas de direita sinceras” contra os candidatos de esquerda.
Do outro lado, a fragmentação é o principal obstáculo. A esquerda francesa está dividida entre o Partido Socialista, de perfil moderado, e o La France Insoumise (LFI), de Jean-Luc Mélenchon, plataforma de esquerda radical que rejeita alianças centristas. Em Toulouse, os socialistas anunciaram aliança com o LFI para tentar derrotar o prefeito de centro-direita. Em Paris, a candidata socialista rejeitou oferta similar, o que pode resultar em múltiplas listas de esquerda dividindo os votos no segundo turno.
Essa fragmentação enfraquece o chamado cordon sanitaire, a prática de décadas pela qual partidos de diferentes espectros se aliavam para impedir vitórias do RN. A eficácia desse mecanismo, já desgastada nas eleições legislativas de 2024, está novamente em teste.






