
Os números divulgados no domingo pelo Ministério das Finanças da França compõem um retrato incômodo para Paris: cerca de 160 plantas industriais foram encerradas em 2025, alta de quase 30% sobre as 121 fechadas no ano anterior, enquanto as novas aberturas recuaram de 115 para 103 unidades.
O saldo líquido negativo de 57 unidades representa o pior resultado dos últimos anos e consolida o que especialistas descrevem como uma desindustrialização acelerada. O ministério apontou como fatores centrais a piora do ambiente internacional, a pressão de concorrentes asiáticos e o impacto das tarifas americanas sobre produtos europeus, além dos custos de energia ainda elevados. Os setores mais afetados incluem agroalimentar, equipamentos de transporte, bens de consumo e construção civil.
O problema não é inteiramente novo. No segundo semestre de 2024, a França já registrava 34 fechamentos líquidos de fábricas, seguidos de outros 25 no primeiro semestre de 2025, uma situação não vista há cerca de dez anos. A indústria manufatureira francesa representa hoje cerca de 9,4% do PIB do país, queda expressiva em relação à média histórica de 15,4% entre 1960 e 2024.
No plano externo, o ambiente tarifário americano adicionou pressão considerável ao longo de 2025. Em abril de 2025, os Estados Unidos impuseram uma tarifa de referência de 10% sobre produtos europeus, além de 25% sobre aço, alumínio e automóveis. Após uma pausa de 90 dias anunciada em abril, a tarifa sobre produtos europeus em geral foi reduzida de volta à alíquota base de 10%. Em fevereiro deste ano, a Suprema Corte americana derrubou as tarifas impostas pela via do IEEPA. Horas após a decisão judicial, a administração Trump implementou uma nova tarifa global de 10% com base no artigo 122 do Trade Act de 1974, em vigor desde 24 de fevereiro de 2026, com prazo máximo de 150 dias. A incerteza sobre o que virá após esse prazo mantém os fabricantes europeus em estado de alerta para o planejamento de investimentos.
No setor automotivo, um dos pilares da indústria europeia, os dados de 2025 são igualmente preocupantes. As exportações de carros e peças da UE para a China caíram 34% no ano passado, para 16 bilhões de euros. Ao mesmo tempo, as importações de carros e peças chineses para a Europa cresceram 8%, chegando a 22 bilhões de euros, revertendo um superávit histórico e gerando um déficit comercial pela primeira vez. As exportações europeias de automóveis para os EUA também caíram 13% no primeiro semestre de 2025, após a entrada em vigor das tarifas americanas.
Diante do quadro, o ministro das Finanças francês, Eric Lombard, pediu publicamente que a Europa fortaleça suas barreiras tarifárias contra importações chinesas, argumentando que as defesas existentes nos setores de aço e automóveis são insuficientes para proteger a capacidade industrial mais ampla do bloco.
Em Bruxelas, a resposta ganha forma por outras vias. No início do ano, a Comissão Europeia assinou dois acordos comerciais considerados estratégicos: um com a Índia, reduzindo tarifas sobre automóveis de até 110% para 10% ao longo de cinco anos, e outro com o Mercosul, também cortando barreiras no setor automotivo. A estratégia visa diversificar mercados e reduzir a dependência do bloco diante das pressões simultâneas vindas da China e dos Estados Unidos.
No plano interno francês, economistas alertam que medidas emergenciais como subsídios energéticos pontuais e incentivos à requalificação de trabalhadores são necessárias, mas insuficientes. Sem reformas estruturais voltadas ao aumento de produtividade e à requalificação da força de trabalho, os fechamentos de fábricas correm o risco de se tornar um peso persistente sobre o crescimento econômico francês, e não uma anomalia passageira.
Para os demais governos europeus, os números franceses funcionam como sinal de alerta. A França é uma economia do G7 com mercados de capitais maduros, instituições sólidas e acesso a fundos estruturais da União Europeia e ainda assim não conseguiu isolar sua base industrial da convergência entre o protecionismo americano e o poder de escala da manufatura asiática. O que está em jogo agora é se as respostas políticas disponíveis têm velocidade e profundidade suficientes para reverter uma tendência que os dados sugerem ser estrutural.





