Hungria vota neste domingo para decidir se Orbán fica por mais quatro anos

08 de abril de 2026 4 minutos
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A eleição parlamentar húngara de 12 de abril é a mais importante do país desde a queda do comunismo em 1989. Pela primeira vez em 16 anos, Viktor Orbán pode perder. As pesquisas dizem isso com clareza, mas as regras do jogo foram escritas por ele.

Orbán é o líder em exercício há mais tempo em toda a União Europeia. Governa desde 2010 e busca agora um quinto mandato consecutivo com o Fidesz. O desafiante é Péter Magyar, de 45 anos, ex-integrante do próprio partido. Magyar rompeu com o Fidesz em 2024, depois de um escândalo envolvendo o perdão presidencial a um cúmplice em caso de abuso sexual num lar estatal para crianças. Fundou o partido Tisza e conseguiu quase 30% dos votos nas eleições europeias de 2024, o melhor resultado de qualquer partido que não o Fidesz desde 2006.

Uma pesquisa do Instituto 21, publicada no início de abril, coloca o Tisza em 56% entre os eleitores que já decidiram o voto, contra 37% do Fidesz, uma diferença de 19 pontos percentuais. O agregador PolitPro situa essa vantagem em torno de 8 pontos. Em nenhum momento desde 2010 a oposição esteve tão perto.

A economia ajuda a explicar esse movimento. Depois de contrair 0,8% em 2023, a Hungria cresceu apenas uma média de 0,5% em 2024 e 2025, abaixo da média da UE. O déficit orçamentário, projetado em 5% para este ano, supera o limite de 3% exigido pelo bloco. Pela quarta vez consecutiva, a Transparency International classifica a Hungria como o estado mais corrupto da União Europeia. Orbán tentou reagir distribuindo benefícios e cortes de impostos às vésperas do pleito, mas gastou o equivalente a 2% do PIB nesses repasses sem recuperar a popularidade de antes.

O problema mais sério para Magyar, porém, não é convencer os eleitores. É o sistema eleitoral. Em dezembro de 2024, o parlamento controlado pelo Fidesz redesenhou os distritos eleitorais, cortando de 18 para 16 as circunscrições de Budapeste e adicionando dois novos distritos no Condado de Pest, área mais favorável ao governo. Como resultado dessas mudanças, o Tisza precisa superar o Fidesz em pelo menos 3 a 5 pontos percentuais no voto nacional para conquistar maioria no parlamento. O sistema também permite o chamado “turismo eleitoral”, que deixa eleitores se registrarem para votar fora de sua residência, prática que historicamente beneficia o Fidesz com votos da diáspora húngara.

A campanha foi marcada por uma polarização intensa e por interferências externas pouco disfarçadas. Trump e Netanyahu gravaram vídeos de apoio a Orbán. O vice-presidente americano JD Vance foi pessoalmente a Budapeste na véspera da eleição. Do lado oposto, Macron e os líderes da UE acompanham o processo em silêncio, sem querer dar a Orbán o pretexto de acusar Bruxelas de interferência. A campanha foi marcada também por acusações de que uma operação ligada ao Kremlin tentou inundar as redes sociais húngaras com mensagens para aumentar a popularidade do governo.

Para a Europa, o resultado de domingo vai além das fronteiras da Hungria. Budapeste tem bloqueado o apoio à Ucrânia dentro da UE, se oposto à adesão ucraniana ao bloco e travado um empréstimo de 90 bilhões de euros a Kiev. Uma vitória de Magyar removeria o principal aliado de Moscou dentro do bloco e desbloquearia uma agenda paralisada há anos.

Mas ganhar a eleição seria só o começo. Orbán abandonará uma rede de aliados instalados em posições-chave por todo o aparato estatal. O caminho da Polônia depois de 2023 serve de aviso: Donald Tusk chegou ao poder com mandato reformista e se viu travado por instituições que o antecessor havia capturado durante anos. Magyar, sem maioria de dois terços, dificilmente conseguirá alterar a Constituição, que Orbán reformou ao menos 16 vezes durante seu governo.

O que está em jogo no domingo é uma pergunta que a Europa ainda não sabe responder: é possível derrubar um sistema que foi construído especialmente para não ser derrubado?

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