
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito presidente do Brasil com 51,8% dos votos válidos, contra 48,2% do senador Flávio Bolsonaro (PL). A diferença ficou em 4,4 milhões de votos, mais que o dobro da vantagem que Lula teve sobre Jair Bolsonaro em 2022. Foi também a primeira vez desde a redemocratização que o segundo colocado no primeiro turno venceu a disputa pela Presidência.
Nos principais jornais europeus, a cobertura combinou três leituras. A primeira destaca a virada, que as pesquisas não indicavam. A segunda vê no resultado um freio ao avanço da direita na América Latina e à influência do presidente americano Donald Trump na região, onde Chile, Bolívia e Colômbia elegeram governos de direita. A terceira é um alerta sobre o governo que começa, com um Congresso mais conservador e a recusa de Flávio Bolsonaro em reconhecer a derrota.
Guardian e Corriere contam a história de uma virada
O The Guardian, um dos principais jornais de centro-esquerda do Reino Unido, tratou a eleição como a história de uma recuperação política. O jornal lembrou que a derrota no primeiro turno chegou a pôr em dúvida o futuro de Lula e abalou o campo progressista. Para o Guardian, o quarto mandato é o ponto alto de uma carreira de meio século, que descreveu como incrível, embora às vezes controversa.
O Corriere della Sera, um dos maiores jornais da Itália, seguiu linha parecida e apresentou Lula como “o sobrevivente”, capaz de voltar depois de reveses judiciais e eleitorais. O jornal também deu destaque ao contexto confuso do segundo turno. A votação foi prorrogada por duas horas por decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, a pedido da campanha de Lula, que relatou problemas no transporte público. É nessa prorrogação que Flávio Bolsonaro se apoia para pedir a anulação da eleição.
Le Monde e El País leem o resultado além do Brasil
O Le Monde, principal jornal de referência da França, destacou que as pesquisas apontavam Flávio Bolsonaro à frente, ainda que em empate técnico. Na análise do diário, a chance de volta de um bolsonarismo mais radical e alinhado a Trump levou eleitores a comparecer em massa às urnas. O jornal leu o resultado como uma afirmação da democracia, da soberania nacional, da proteção da Amazônia e da justiça social. Ao mesmo tempo, avaliou que o quarto mandato será complicado, diante de um Congresso mais conservador e da pressão da sociedade civil.
O El País, um dos principais jornais da Espanha, fez a leitura mais geopolítica. Na reportagem, apresentou Lula como contrapeso a Trump e referência da esquerda latino-americana. Em artigo de opinião, afirmou que a derrota de Flávio Bolsonaro é um revés para o que chamou de intervencionismo partidário de Trump na região e interrompe uma sequência de sete derrotas eleitorais da esquerda latino-americana em 20 meses. O jornal também apontou a disputa que se abre na direita brasileira após a derrota da família Bolsonaro.
Na Espanha, o resultado ganhou ainda leitura doméstica. O primeiro-ministro Pedro Sánchez, que convocou eleições antecipadas para o fim de novembro, escreveu nas redes sociais que o que aconteceu no Brasil também vai acontecer no país dele.
Alemanha põe a contestação no centro
A revista semanal alemã Der Spiegel adotou um tom mais factual. Destacou que Lula, aos 80 anos, conquistou um quarto mandato histórico, mas classificou a vitória como apertada e deu peso imediato à recusa de Flávio Bolsonaro em reconhecer a derrota.
A dpa, maior agência de notícias da Alemanha, lembrou os ataques às sedes dos Três Poderes em 2023, depois que Jair Bolsonaro também não reconheceu a derrota. A agência ouviu Maximilian Hedrich, da Fundação Konrad Adenauer, ligada ao partido do chanceler Friedrich Merz. Para ele, a experiência de Lula como negociador ajuda, mas o presidente vai depender mais do que nunca de acordos com uma oposição de direita forte no Congresso.
Governos e Bruxelas falam em parceria e comércio
Os governos europeus também se manifestaram. O chanceler Merz disse querer aprofundar a parceria estratégica com o Brasil, e o presidente francês Emmanuel Macron escreveu que os dois países têm muito a construir juntos. Em Bruxelas, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que a democracia e o multilateralismo venceram no Brasil. Segundo a dpa, ela também disse que a parceria entre Europa e Brasil vive um bom momento e que os dois lados vão seguir juntos na defesa do comércio livre e aberto.
A menção ao comércio tem relação direta com o acordo entre Mercosul e União Europeia. O tratado vale de forma provisória desde maio, depois de mais de 25 anos de negociação. A aplicação definitiva ainda depende de um parecer do Tribunal de Justiça da União Europeia, pedido pelo Parlamento Europeu, órgão formado por deputados eleitos nos 27 países do bloco. Essa análise pode levar até dois anos.
Para as empresas brasileiras, o acordo já tem efeito prático. Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, 94% das exportações do país para o bloco devem ficar livres de tarifa em até quatro anos. Do lado europeu, as principais resistências ao tratado partiram de França e Polônia.




