Jogos de Inverno estão entre o ideal olímpico e a realidade geopolítica

30 de janeiro de 2026 3 minutos
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Os Jogos Olímpicos de Inverno sempre carregaram o simbolismo da união entre nações, mas a edição de 2026 em Milão-Cortina, na Itália, coloca sob os holofotes uma tensão entre o ideal olímpico de paz e fraternidade e a dura realidade geopolítica mundial.

A Organização das Nações Unidas apelou por uma trégua de 52 dias em todos os conflitos mundiais para que os jogos transcorram com tranquilidade a partir de 6 de fevereiro. Simultaneamente, a Europa levantou barreiras contra a presença de agentes do ICE, o serviço de imigração dos Estados Unidos, no continente. Duas narrativas opostas que revelam diferenças marcantes entre o discurso e a prática no cenário internacional.

A tradição da trégua olímpica remonta à Grécia Antiga, quando em 776 a.C. as cidades-estado suspendiam suas guerras para que atletas e espectadores pudessem viajar em segurança até Olímpia. Mais de 2.800 anos depois, o Comitê Olímpico Internacional retomou esse simbolismo em 1992, e desde então a ONU aprova resoluções pedindo cessar-fogo durante os Jogos.

Para Milão-Cortina 2026, a Itália apresentou e a Assembleia Geral da ONU adotou uma resolução solicitando pausa nos conflitos globais. O apelo foi feito em meio a guerras ativas na Ucrânia, Gaza, Sudão e outros pontos do globo.

Em 1994, durante os Jogos de Lillehammer, houve de fato uma pausa temporária no cerco de Sarajevo, permitindo que atletas bósnios competissem. No ano 2000, atletas das duas Coreias marcharam juntos sob uma bandeira unificada em Sydney. Mas em 2022, a Rússia invadiu a Ucrânia justamente durante o período de trégua dos Jogos de Inverno de Pequim — um lembrete de que promessas diplomáticas passaram a ter pouco peso diante de interesses geopolíticos.

Se a trégua da ONU parece desconectada da realidade, a reação europeia à presença de agentes do ICE (Immigration and Customs Enforcement) nos Jogos mostra que, quando se trata de soberania e valores, o continente não hesita em dizer quais são os limites. Na Alemanha, uma petição online exigindo a proibição de agentes do ICE em território da União Europeia já ultrapassou 83 mil assinaturas. Políticos italianos instaram a primeira-ministra Giorgia Meloni a intervir e bloquear a operação.

O ministro do Interior italiano esclareceu que apenas investigadores do HSI, o braço investigativo do ICE, estariam presentes, sem poderes operacionais de deportação. Esses agentes trabalhariam exclusivamente dentro das embaixadas americanas, não em território italiano propriamente dito. O Comitê Olímpico Internacional, por sua vez, afirmou que a segurança dos Jogos é responsabilidade exclusiva do país anfitrião.

A boa intenção da ONU ao pedir uma trégua global contrasta com a firmeza europeia ao recusar a presença do ICE. Dificilmente um conflito armado será interrompido porque 3.500 atletas de 93 países competirão nas montanhas italianas. Mais do que uma competição esportiva, Milão-Cortina 2026 será mais um espelho do mundo fragmentado, desigual e político.

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