
A Finlândia voltou a encabeçar o Relatório Mundial da Felicidade 2026, mantendo o primeiro lugar pelo nono ano consecutivo, seguida pela Islândia, Dinamarca e Costa Rica. O documento, publicado na véspera do Dia Mundial da Felicidade, celebrado em 20 de março, é elaborado pelo Centro de Investigação do Bem-Estar da Universidade de Oxford em parceria com a Gallup e a Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável da ONU.
A supremacia escandinava não é nova, mas este ano o ranking traz uma leitura mais densa do que o simples pódio nórdico sugere. Muitas economias avançadas, incluindo Estados Unidos, Canadá, Reino Unido e boa parte da Europa Ocidental, situam-se numa faixa estreita de pontuação entre 6,7 e 6,9 numa escala de 10, o que aponta para uma estagnação da satisfação de vida entre as nações mais ricas.
O modelo nórdico como referência estrutural
O relatório atribui a liderança persistente da Finlândia e dos demais países do norte da Europa a uma combinação de riqueza, sua distribuição equitativa, a existência de um Estado-providência capaz de proteger os cidadãos nos ciclos recessivos e uma expectativa de vida saudável. Trata-se de um modelo que articula prosperidade com coesão social, e não apenas PIB per capita elevado.
A Finlândia registou uma pontuação média de 7,8 em 10, mantendo-se destacada face à maioria dos países. Ao mesmo tempo, nações da Europa Central e Oriental como a Polónia e a Estónia escalam gradualmente o ranking, sinalizando melhorias nas condições de vida e nas estruturas sociais.
O presidente finlandês Alexander Stubb reagiu ao resultado com sobriedade: afirmou não existir “uma poção mágica”, mas reconheceu que “ajuda ter uma sociedade que se esforça por alcançar liberdade, igualdade e justiça”.
A variável digital e o paradoxo da juventude
O tema central desta edição é o impacto das redes sociais no bem-estar. Entre os jovens com menos de 25 anos em países de língua inglesa e na Europa Ocidental, a pontuação de satisfação com a vida caiu quase um ponto numa escala de 10 ao longo da última década. O relatório identifica nas plataformas de feeds algorítmicos, aquelas centradas em conteúdo visual e influenciadores, os vetores mais nocivos, por estimularem comparações sociais.
Os investigadores concluem que a intensidade e o tipo de utilização importam mais do que o simples acesso às redes sociais. Em 47 países analisados, a satisfação com a vida é mais elevada nos utilizadores de baixa intensidade e declina à medida que o uso aumenta, com efeitos especialmente pronunciados entre raparigas e em países anglófonos.
Jan-Emmanuel De Neve, professor de Economia em Oxford e codiretor do relatório, sintetizou a questão de forma direta: a era digital está a reformatar os fundamentos sociais e emocionais do bem-estar na Europa, com efeitos que dependem de quem se é, do ambiente social em que se vive e da ecologia digital que nos rodeia.
No contexto europeu, o desempenho de Portugal merece atenção. O país ocupa o 69º lugar, entre a Colômbia (68ª) e a Croácia (70ª), após ter caído nove posições face ao ranking anterior, quando já havia descido cinco lugares. ebc A trajetória negativa é consistente e sugere que as dificuldades estruturais do mercado de trabalho, a pressão habitacional e a emigração qualificada pesam na percepção subjetiva de bem-estar dos portugueses.
Pelo segundo ano consecutivo, nenhum país de língua inglesa figura no top 10. Os Estados Unidos estão na 23ª posição, o Canadá na 25ª e o Reino Unido na 29ª. A ausência britânica do grupo de topo, num momento de fragilidade política e de pressão sobre os serviços públicos, é um dado que os formuladores de política não devem ignorar.
Em contrapartida, países como o Kosovo (16º), a Eslovénia (18ª) e a Chéquia (20ª) sinalizam uma convergência crescente entre a Europa Central e Oriental e os padrões de bem-estar da Europa Ocidental.
América do Sul: Brasil sobe, Chile cede
Já na América do Sul, o Brasil subiu oito posições e ocupa agora o 36º lugar, ultrapassando o Chile, que recuou do 38º para o 45º posto. O Uruguai mantém-se como o país mais bem classificado da região, na 29ª posição, seguido pelo Brasil e pela Argentina, na 42ª colocação.
Para os investigadores, o desempenho relativamente elevado da América Latina deve-se à qualidade dos laços sociais e à estabilidade do tecido comunitário. “A América Latina tem, em geral, fortes vínculos familiares e sociais, um grande nível de capital social”, sublinhou De Neve. Esta resiliência relacional parece compensar, em termos de bem-estar percebido, as fragilidades económicas que caracterizam a maioria dos países da região.
O estudo abrange 147 países. O último da tabela é, uma vez mais, o Afeganistão.






