
Depois de meses de avanços e recuos, a União Europeia e o Parlamento Europeu chegaram a um acordo provisório para implementar a parte europeia do pacto comercial firmado com Washington no verão passado. A decisão, anunciada na quarta-feira, 20 de maio, abre caminho para que as reduções tarifárias entrem em vigor antes do prazo de 4 de julho imposto por Donald Trump. Mas o texto que emergiu das negociações conta uma história mais complexa do que um simples aperto de mãos.
O acordo de Turnberry, fechado em julho de 2025 no resort de golfe de propriedade de Trump na Escócia, estabeleceu um teto de 15% para as tarifas americanas sobre a maioria dos produtos europeus, incluindo carros, peças automotivas e, potencialmente no futuro, medicamentos e semicondutores. Em contrapartida, a UE concordou em eliminar as tarifas sobre a maioria dos produtos industriais americanos e conceder acesso preferencial a uma ampla gama de produtos agrícolas e pesqueiros dos Estados Unidos. A assimetria é evidente e foi amplamente criticada: zero de um lado, 15% do outro.
O que está em jogo não é apenas dinheiro. A relação comercial transatlântica movimenta cerca de 1,3 trilhão de dólares por ano, com cadeias de abastecimento profundamente integradas dos dois lados do Atlântico. Paralisar esse fluxo seria custoso para todos, mas a urgência era sobretudo europeia. Trump havia ameaçado elevar as tarifas sobre automóveis da UE de 15% para 25% caso o bloco não cumprisse sua parte do acordo até o Dia da Independência americano.
O texto aprovado provisoriamente traz algumas conquistas do Parlamento Europeu, que havia pressionado por salvaguardas mais robustas. A regulação terá prazo de validade: o acordo expirará em 31 de dezembro de 2029, e a Comissão Europeia poderá suspender as preferências tarifárias caso, até o final de 2026, Washington continue aplicando tarifas superiores a 15% sobre derivados de aço e alumínio europeus. É uma concessão importante dos negociadores do bloco, que reconhece a necessidade de mecanismos de saída caso os Estados Unidos não honrem o combinado.
Mas os eurodeputados não conseguiram tudo o que queriam. O pedido de suspensão automática do acordo em caso de ameaças à integridade territorial europeia, uma referência direta às insinuações de Trump sobre a Groenlândia, ficou de fora do texto final. A cláusula sobre aço e alumínio, que havia consumido mais de duas horas nas negociações da madrugada, também saiu mais branda do que o Parlamento desejava: em vez de uma suspensão automática, a decisão fica a cargo da Comissão.
O negociador-chefe do Parlamento, o socialista alemão Bernd Lange, classificou o desfecho como uma jornada acidentada que valeu a pena. É uma avaliação que sintetiza bem o momento. O processo legislativo foi interrompido duas vezes, primeiro após ameaças de Trump de impor novas tarifas a aliados que não apoiassem seus planos para a Groenlândia, depois quando a Suprema Corte americana declarou ilegais as tarifas globais impostas pela Casa Branca.
O calendário agora é apertado. A Comissão de Comércio do Parlamento vota o acordo em 2 de junho, com plenário previsto para 16 ou 17 do mesmo mês. Se o texto passar, o Conselho da UE deve seguir na sequência, dentro do prazo de 4 de julho. Lange acredita que a maioria de 417 votos que aprovou o mandato de negociação voltará a se reunir.
Há, porém, uma incógnita central: como Washington reagirá às condições adicionais. Trump provavelmente verá as tarifas zeradas sobre produtos americanos como uma vitória política clara e não se deterá nos detalhes das salvaguardas. Mas o setor siderúrgico americano pode ter uma leitura diferente, e essa é exatamente a fratura que os europeus temem.




