Ormuz respira, aviação europeia ainda não

17 de abril de 2026 4 minutos
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A aviação europeia, que passou a semana sob a sombra de um possível racionamento de querosene, ganhou uma folga inesperada na manhã desta sexta-feira (17). O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, confirmou que o Estreito de Ormuz está totalmente liberado para a passagem de embarcações comerciais durante o período de cessar-fogo. A reação dos mercados foi imediata: o petróleo tipo Brent recuou mais de 10%, com o barril cotado abaixo dos US$ 90.

O anúncio chega em momento de pressão aguda sobre o setor aéreo. O diretor executivo da Agência Internacional de Energia (AIE), Fatih Birol, havia alertado na véspera que a Europa dispõe de apenas cerca de seis semanas de querosene de aviação, e os primeiros cancelamentos concretos já haviam sido anunciados.

Antes da reabertura ser confirmada, a Lufthansa e a KLM já haviam tomado decisões operacionais difíceis de reverter no curto prazo. A companhia alemã anunciou o encerramento imediato da subsidiária regional CityLine, retirando de serviço suas 27 aeronaves em razão de altos custos de combustível combinados a disputas trabalhistas. As ações da Lufthansa recuaram mais de 3,5% na quinta-feira na Bolsa de Frankfurt.

A KLM cortou 160 voos para o próximo mês, cerca de 1% de suas rotas europeias totais, citando rotas que “não são mais financeiramente viáveis de operar”. A EasyJet, que havia garantido mais de três quartos de seu combustível via hedge antes da escalada dos preços, ainda assim registrou um custo adicional de £25 milhões só em março, e projeta prejuízo antes de impostos entre £540 milhões e £560 milhões para o primeiro semestre de 2026.

O custo financeiro do bloqueio está cristalizado em um número: o querosene de referência europeu atingiu US$ 1.838 por tonelada no início de abril, mais do que o dobro dos US$ 831 registrados antes do início do conflito.

O alívio e suas limitações

A reabertura não elimina automaticamente o risco para a temporada de verão. Analistas do setor apontam que a logística de reabastecimento tem seus próprios prazos. Amaar Khan, chefe de preços de querosene europeu da Argus Media, havia advertido que mesmo com a retomada do fornecimento do Golfo, o processo de recomposição dos estoques levaria de cinco a seis semanas. Isso coloca junho, início do pico de viagens, como o horizonte crítico.

A Europa dependia historicamente do Oriente Médio para cerca de 75% de suas importações de combustível de aviação, e a substituição parcial desse volume por carregamentos dos Estados Unidos e da Nigéria esbarra em limites logísticos que não desaparecem da noite para o dia.

Há também a questão da confiança. O Estreito de Ormuz havia sido brevemente reaberto como parte de uma trégua anterior, mas voltou a ser fechado quando o Irã considerou que Israel havia violado o cessar-fogo ao continuar operações no Líbano. A reabertura desta sexta-feira ocorre no contexto de um novo cessar-fogo entre Israel e Líbano, anunciado por Trump na véspera, mas a fragilidade do arranjo é evidente.

A Ryanair, maior operadora europeia em número de passageiros, havia resumido bem a postura do setor: afirmou que seus fornecedores conseguiam garantir abastecimento apenas até meados ou fim de maio, e que, se o bloqueio se estendesse até maio ou junho, não podia descartar riscos em alguns aeroportos europeus.

A Comissão Europeia, que manteve tom cauteloso durante a semana reconhecendo apenas que “gargalos de fornecimento podem ocorrer em breve”, deve anunciar medidas energéticas na próxima semana. A Airlines for Europe pediu à UE que classifique a escassez de combustível como “circunstância extraordinária”, o que eximiria as companhias aéreas de compensações em cancelamentos forçados.

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