
O início de 2026 marcou uma escalada na conflitualidade laboral europeia, com salas de aula vazias, voos cancelados e consultas médicas suspensas em vários países da União Europeia. Os dados disponíveis revelam um paradoxo que merece atenção: há mais greves ao mesmo tempo em que os sindicatos perdem representatividade.
Segundo levantamento divulgado pela Euronews com dados da plataforma Strike Tracker, da DGERT e do órgão italiano CGSSE, Portugal liderou o ranking entre sete países da UE no primeiro trimestre de 2026, com 234 greves registradas, muito à frente da Itália, com 190, da Espanha, com 108, e da França, com 105.
As paralisações concentraram-se principalmente nos setores de transportes, educação, saúde e administração pública. Em Portugal, a tensão foi amplificada por dois fatores: o anúncio de um novo pacote trabalhista pelo governo de centro-direita e uma segunda greve geral nacional em seis meses, realizada em junho. A Confederação Empresarial de Portugal contestou a amplitude do movimento, afirmando que a adesão foi ainda menor do que na greve de dezembro de 2025, com setores como indústria química, metalomecânica e automóvel praticamente sem participação.
Na Itália, os servidores da polícia local anunciaram paralisação nacional em 12 de junho para pressionar por melhores condições de trabalho, após hospitalizações de agentes em serviço. No extremo oposto do espectro, os Países Baixos registraram apenas cerca de sete greves no mesmo período, acompanhados por Alemanha e Áustria como os países onde a greve é historicamente um recurso menos frequente.
Dados preliminares do Instituto Sindical Europeu indicam que 2025 poderá ter sido o ano com mais greves na UE desde 1991. Entre 2020 e 2024, Finlândia, Bélgica e França foram os países onde as paralisações ocorreram com maior frequência. O principal motor das grandes greves em 2024 foi a questão salarial, especialmente a incapacidade dos salários de acompanhar o custo de vida elevado pela inflação.
A contradição estrutural do movimento sindical europeu está nos números da OCDE. A proporção de trabalhadores sindicalizados caiu pela metade desde 1985, de 30% para 15% entre 2023 e 2024, com exceção da Bélgica. Em média nos 28 países da OCDE, 14,3% das mulheres empregadas estavam sindicalizadas em 2024, contra 15% dos homens. A sindicalização é significativamente mais forte no setor público, com 41,3% dos trabalhadores filiados, frente a apenas 10,1% no setor privado




