
Neste sábado, 30 de maio, às 13h no horário de Brasília, a Arena Puskás de Budapeste vai abrir as portas para uma das cenas mais antigas e renovadas do esporte: dois times disputando a taça mais cobiçada do futebol europeu. PSG e Arsenal. Paris e Londres. O campeão que quer se eternizar e o gigante adormecido que acorda depois de vinte anos.
Mas antes de qualquer bola rolar, já há uma curiosidade que vale ser notada: pela primeira vez em muitos anos, a UEFA decidiu antecipar em três horas o horário tradicional das finais. O motivo é uma combinação de pragmatismo e visão de mundo. Com o jogo mais cedo, a entidade europeia pretende ampliar o alcance para o mercado asiático, onde as partidas costumavam ser transmitidas de madrugada. O presidente da UEFA, Aleksander Čeferin, sintetizou bem a ideia ao afirmar que a mudança foi pensada para tornar a final “ainda mais acessível, inclusiva e impactante para todos os envolvidos.”
Budapeste recebe pela primeira vez em sua história uma final de Champions League. A arena que vai receber a final homenageia um dos maiores jogadores da história húngara, e do futebol em geral: Ferenc Puskás. O mesmo Puskás que, defendendo o Real Madrid, fez quatro gols na final de 1960 contra o Eintracht Frankfurt, numa goleada histórica de 7 a 3 que ainda hoje é lembrada como uma das partidas mais espetaculares já jogadas numa final europeia. O estádio, inaugurado em 2019 com um custo de cerca de 533 milhões de euros, tem capacidade para mais de 67 mil pessoas, e a expectativa é de que mais de 61 mil delas estejam nas arquibancadas neste sábado.
Um torneio que começou com 38 mil pessoas e uma virada improvável
A competição que hoje paralisa o mundo nasceu modestamente em Paris, em junho de 1956, no antigo Parc des Princes. Apenas 38 mil pessoas assistiram à primeira final, que colocou Real Madrid e o Stade de Reims frente a frente. O time francês saiu na frente logo nos primeiros dez minutos, fazendo 2 a 0, mas o Madrid virou, terminou vencedor por 4 a 3 e iniciou uma das séries mais dominantes da história do esporte coletivo: cinco títulos consecutivos entre 1956 e 1960.
Desde então, o torneio foi rebatizado de Liga dos Campeões em 1992, cresceu exponencialmente em tamanho, audiência e dinheiro, e se tornou o maior palco do futebol de clubes do planeta. Nesta temporada, a competição ganhou mais um formato novo, com 36 clubes na fase inicial e um sistema de pontos corridos que substituiu os grupos tradicionais, aumentando o número de confrontos entre times grandes logo nos primeiros estágios.
O clube com mais títulos segue sendo o Real Madrid, com 15 conquistas. Logo atrás vêm AC Milan com oito e Bayern de Munique com seis. Em termos de jogadores, o espanhol Francisco Gento e o italiano Paolo Maldini dividem o recorde de oito finais disputadas cada um. E o técnico com mais títulos é Zinedine Zidane, com três conquistas consecutivas entre 2016 e 2018, todas pelo Real Madrid.
Do lado parisiense, a figura central não está em campo, mas à beira dele. Luis Enrique, técnico espanhol de 55 anos, chega a esta final com um currículo que impõe respeito: venceu 11 das 12 finais de clube que disputou na carreira. Ganhou a Champions em 2015 com o Barcelona, com o famoso time de Messi, Neymar e Suárez. E repetiu o feito em 2025 com o PSG, numa goleada histórica de 5 a 0 sobre a Inter de Milão que é, até hoje, a maior vitória já registrada numa final de Copa dos Campeões, superando a marca anterior de 4 a 0 do AC Milan sobre o Steaua Bucareste em 1989.
Se vencer neste sábado, Luis Enrique se tornará o primeiro técnico a defender o título da Champions à frente de dois clubes diferentes na era moderna da competição. Uma façanha sem precedentes.
O PSG, por sua vez, busca algo que neste século apenas o Real Madrid conseguiu: vencer a Champions em dois anos consecutivos. O time parisiense é o primeiro a disputar duas finais seguidas desde o Liverpool, em 2018 e 2019. No campo, a equipe francesa eliminou Monaco, Chelsea, Liverpool e, nas semifinais, o Bayern de Munique numa disputa de seis gols a cinco no placar agregado.
O Arsenal voltou, vinte anos depois
Do outro lado, o Arsenal carrega o peso e a leveza de quem esperou muito tempo por esse momento. O clube londrino só esteve em uma final de Champions na história, em 2006, quando perdeu por 2 a 1 para o Barcelona, em Paris, numa equipe que tinha Thierry Henry e Cesc Fàbregas entre suas estrelas. Foram vinte anos até a próxima oportunidade. E ela veio justamente contra o mesmo PSG que havia eliminado o Arsenal nas semifinais da temporada anterior.
Nesta temporada, os Gunners chegaram à decisão após eliminar o Bayer Leverkusen, o Sporting e, nas semifinais, o Atlético de Madrid. Além disso, o time de Mikel Arteta conquistou o título da Premier League, encerrando uma longa espera no campeonato inglês, o que torna o Arsenal uma das raras equipes no planeta que vai disputar uma final de Champions na condição de campeão nacional.
Se o Arsenal levantar a taça, será o 25º clube diferente a conquistar o torneio e o segundo campeão inédito consecutivo, após o próprio PSG em 2025.
Uma final com passaporte para a Copa do Mundo
Há um detalhe curioso e completamente contemporâneo nesta decisão: boa parte dos jogadores que entrarão em campo neste sábado estará, em questão de dias, viajando para representar suas seleções na Copa do Mundo, que começa em 11 de junho nos Estados Unidos, México e Canadá. As duas delegações reúnem convocados de múltiplas seleções, de França e Inglaterra às da América do Sul.
Pelo lado brasileiro, a final terá pelo menos cinco nomes da Seleção ou de outras equipes nacionais. O capitão do PSG, Marquinhos, de 32 anos, é um dos líderes da defesa parisiense e provável titular na Copa. Ao lado dele, Lucas Beraldo também compõe o elenco francês. No Arsenal, Gabriel Magalhães e Gabriel Martinelli são as apostas mais fortes para começar jogando, enquanto Gabriel Jesus oferece experiência no banco de reservas. A final, portanto, é também um último ensaio antes do maior torneio do mundo, e cada jogador sabe que as próximas horas podem ser decisivas tanto para levantar um troféu quanto para confirmar ou consolidar uma convocação.
Finais de Champions carregam histórias que transcendem o placar. Em 2012, o Chelsea ganhou nos pênaltis contra o Bayern de Munique, no próprio estádio bávaro, com a torcida adversária ao redor. Em 2005, o Liverpool sofreu três gols do AC Milan no primeiro tempo e virou no segundo para ganhar também nos pênaltis, numa das noites mais dramáticas já registradas. Em 1999, o Manchester United marcou dois gols nos acréscimos para superar o Bayern.
Esta edição, disputada em Budapeste, tem ingredientes para ser mais uma dessas histórias: um PSG que quer se eternizar, um Arsenal que quer se redimir de décadas de ausência, uma cidade que sedia o maior jogo do continente pela primeira vez, um horário inédito e um mundo que, a partir das 13h no horário de Brasília, vai parar para assistir.




