
Na véspera do décimo aniversário do referendo que selou a saída do Reino Unido da União Europeia, o primeiro ministro Keir Starmer anunciou sua renúncia nesta segunda feira (22). Com a saída, o país caminha para o seu sétimo chefe de governo em apenas dez anos, uma rotatividade que não se via em Downing Street desde o século XIX. A coincidência de datas não é casual: o Brexit, que em 23 de junho de 2016 prometia resgatar a soberania e a prosperidade britânicas, tornou se sinônimo de instabilidade política e de uma economia que, na avaliação dos próprios britânicos, ficou pior do que era antes da saída.
Starmer permaneceu menos de dois anos no cargo. Eleito com ampla maioria parlamentar em julho de 2024, viu sua aprovação despencar em meio a uma economia estagnada, o aumento do custo de vida agravado pela guerra no Oriente Médio e o avanço do Reform UK, partido de ultradireita liderado por Nigel Farage. O escândalo envolvendo a nomeação e posterior destituição de Peter Mandelson como embaixador em Washington, após revelações sobre seus vínculos com o criminoso sexual Jeffrey Epstein, acelerou a debandada dentro do próprio partido. A derrota acachapante do Labour nas eleições locais inglesas e regionais na Escócia e no País de Gales, em 7 de maio, selou seu destino. Starmer perdeu a confiança de sua bancada parlamentar e optou por renunciar.
O favorito para sucedê-lo é Andy Burnham, ex-prefeito de Manchester, que na semana passada conquistou uma cadeira parlamentar ao derrotar o Reform em Makerfield. Starmer informou que as indicações para a liderança serão abertas em 9 de julho e encerradas quando o Parlamento entrar em recesso de verão, previsto para 16 de julho. Caso não haja disputa, Burnham pode assumir pouco depois. Se houver, o novo líder será escolhido até 1º de setembro.
A sucessão de primeiros ministros desde 2016 é, por si só, a medida mais eloquente da crise aberta pelo referendo. David Cameron renunciou no dia seguinte à votação, após ter convocado a consulta popular apostando na vitória da permanência. Theresa May consumiu seu mandato em tentativas fracassadas de aprovar um acordo de saída no Parlamento e renunciou em maio de 2019. Boris Johnson assumiu em julho daquele ano e venceu as eleições de dezembro com o slogan “Get Brexit Done”, mas caiu em 2022 em meio a escândalos, entre eles as festas em Downing Street durante a pandemia. Liz Truss permaneceu no cargo por apenas 45 dias, derrubada pela reação dos mercados a seu plano fiscal, com queda da libra e intervenção do Banco da Inglaterra. Rishi Sunak, que a sucedeu como terceiro premiê em três meses, fez promessas voltadas à economia, à imigração ilegal e ao sistema de saúde, mas conduziu os conservadores à pior derrota de sua história nas eleições de julho de 2024.
Sob o governo Johnson, o Reino Unido encerrou definitivamente seus 47 anos de pertencimento à UE em 31 de janeiro de 2020. Nos anos seguintes, o país tentou trilhar caminho próprio, mas enfrentou dificuldades para impulsionar uma economia de baixo crescimento, prejudicada por dívidas elevadas e gastos crescentes com o Estado de bem estar social, num momento de crescente volatilidade geopolítica. Analistas concordam que o fraco desempenho econômico desde a crise financeira de 2008 deixou os sucessivos governos com poucas opções para oferecer cortes de impostos ou aumento de gastos. “Os eleitores querem que os políticos os tornem mais ricos. Eles não podem fazer isso, mas fingem que podem”, disse Vernon Bogdanor, professor do King’s College London.
A opinião pública britânica reflete a frustração acumulada. Uma pesquisa do European Council on Foreign Relations (ECFR), realizada de 7 a 14 de maio com mais de 2 mil entrevistados, revelou que dois terços consideram que o Brexit teve impacto negativo sobre o país. Entre os ouvidos, dois terços apontaram que a saída elevou o custo de vida e prejudicou a economia. Além disso, 56% consideram que ela foi prejudicial para o combate à imigração ilegal, para o comércio e para a burocracia, enquanto 57% acreditam que reduziu as oportunidades para os jovens. E 57% disseram que a decisão de sair foi “errada”. Três quartos desejam agora laços mais estreitos com a UE. Os britânicos, segundo a mesma pesquisa, preferem a Europa aos Estados Unidos como parceiro de segurança: apenas 18% consideram os EUA um aliado confiável.
O controle da migração, que foi um dos principais motores da campanha pelo Leave, também não entregou o que prometeu: 56% dos entrevistados consideram que a abordagem pós Brexit fracassou nesse quesito e apoiam o restabelecimento da livre circulação com a UE em troca de uma relação comercial mais estreita. Como observou Mark Leonard, diretor do ECFR, “os britânicos percebem que suas esperanças de uma vida melhor fora da UE não estão se concretizando e que o Brexit está prejudicando a capacidade do Reino Unido de lidar com as questões que mais importam aos eleitores”. Uma pesquisa separada do ECFR, realizada em 15 países da UE, mostrou que dois terços dos europeus apoiariam o retorno do Reino Unido ao bloco no futuro.
O desafio, contudo, é maior do que qualquer ocupante de Downing Street. O Brexit reconfigurou alinhamentos políticos que tornaram o tema incendiário para qualquer governo. “Ele reconfigurou as filiações políticas”, observou Anand Menon, cientista político do King’s College London. “Sem dúvida, desempenhou um papel ao incentivar o pensamento populista e as forças políticas populistas.” O Reform UK surgiu como grande desafiante tanto do Labour quanto dos conservadores, e o sistema eleitoral de maioria simples amplifica a distorção: em 2024, o Labour conquistou 63% das cadeiras na Câmara dos Comuns com apenas 34% dos votos, o que reforça em parte do eleitorado a sensação de não ser representado.




