Seis países da UE pressionam Bruxelas a integrar mercados de capitais antes do verão

13 de março de 2026 4 minutos
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As seis maiores economias da União Europeia enviaram nesta semana uma carta conjunta a Bruxelas exigindo ritmo mais acelerado na integração dos mercados de capitais europeus, um projeto que se arrasta há mais de uma década com resultados aquém das expectativas. França, Alemanha, Itália, Países Baixos, Polônia e Espanha pedem que as instituições da UE cheguem a um acordo sobre o chamado Pacote de Integração e Supervisão do Mercado (MISP, na sigla em inglês) até o verão deste ano, sinalizando crescente impaciência com o ritmo legislativo do bloco.

A carta foi endereçada ao comissário europeu responsável pelas finanças, Valdis Dombrovskis, e ao presidente do Eurogrupo. Nela, os ministros das Finanças dos seis países afirmam que a chamada União da Poupança e do Investimento (UPI) tornou-se uma “necessidade urgente” para reforçar o potencial de crescimento do continente e ampliar a soberania econômica europeia.

O apelo ocorre num momento em que o debate sobre a competitividade europeia ganhou nova urgência. O relatório Draghi estimou que a Europa precisa de investimentos adicionais de €750 a €800 bilhões por ano até 2030, parcela considerável destinada a empresas de médio porte que dificilmente conseguem financiamento no mercado bancário tradicional. Atualmente, estima-se que €10 trilhões em poupanças de famílias europeias estão depositados em contas bancárias de baixo rendimento, em vez de serem alocados em mercados de capitais, uma distorção estrutural que os países signatários querem corrigir.

O MISP, publicado pela Comissão Europeia em dezembro de 2025, busca criar um sistema financeiro mais integrado e eficiente que canalize investimentos privados para prioridades estratégicas como as transições verde, digital e de inovação. O pacote inclui propostas de facilitação para o acesso transfronteiriço de plataformas de negociação, harmonização da gestão de ativos e simplificação das regras para fundos de investimento.

Os ministros também pressionam por avanços na agenda de pagamentos digitais. De acordo com dados do Banco Central Europeu de 2025, Mastercard e Visa respondem por 61% dos pagamentos com cartão na Europa e por praticamente 100% das transações transfronteiriças. Para reduzir essa dependência, os seis países defendem o desenvolvimento de redes de pagamento pan-europeias privadas e a aceleração do euro digital. O projeto enfrenta resistência no Parlamento Europeu, onde o relator da matéria, o eurodeputado espanhol Fernando Navarrete, do centro-direita, quer limitar o euro digital apenas a pagamentos offline para evitar concorrência com a infraestrutura privada existente.

A urgência da carta reflete um problema crônico de fragmentação. Dados da EFAMA mostram que os ativos de fundos europeus estão fortemente concentrados em poucos mercados: Luxemburgo detém 25% da participação europeia, Irlanda 21%, enquanto Alemanha, França e Itália respondem por outros 34%. Essa concentração evidencia as divergências regulatórias que persistem entre os Estados-membros e que o MISP pretende atacar.

Também está na pauta a revisão do marco de securitização da UE. Em dezembro passado, o Conselho da UE aprovou sua posição negociadora para revitalizar o mercado europeu de securitização, reduzindo exigências administrativas e recalibrando os requisitos de capital. O texto agora segue para negociações com o Parlamento Europeu. Os signatários da carta esperam que a revisão seja concluída até o outono de 2026.

O calendário é ambicioso. A UE já tentou integrar seus mercados de capitais desde 2015, quando lançou a primeira versão da União dos Mercados de Capitais. A iniciativa revelou-se politicamente contenciosa, e a nova estratégia, lançada em março de 2025 sob o nome de UPI, ganhou impulso renovado a partir dos relatórios de Draghi e Letta, mas ainda enfrenta resistências nacionais sobre aspectos técnicos como supervisão e distribuição transfronteiriça de fundos.

A carta conjunta funciona como um recado político: as maiores economias do bloco querem resultados antes que o impulso reformista perca fôlego.

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