
A Tesla deixou de usar o nome Full Self-Driving, ou “direção autônoma total”, na Europa. Nos sites europeus da marca, o sistema de assistência ao motorista passou a se chamar Tesla Assisted Driving, a condução assistida Tesla. O software é o mesmo: acelera, freia, faz curvas e estaciona, mas exige que o motorista acompanhe a estrada e assuma o controle quando for preciso.
A mudança atende ao governo da Alemanha. No início de outubro, o Ministério dos Transportes alemão afirmou que o nome antigo era “um tanto enganoso”, porque o sistema não assume toda a tarefa de dirigir e o motorista segue integralmente responsável pelo carro. Segundo o ministério, a própria Tesla ofereceu a troca em reuniões realizadas em setembro com o ministro Steffen Bilger, do mesmo partido do chanceler Friedrich Merz e no cargo desde o fim de julho.
Em troca, Berlim passou a defender a liberação do sistema em toda a União Europeia. Bilger disse que quer ver os motoristas da Tesla usando a condução assistida em todo o bloco “o mais rápido possível”. Elon Musk, que comanda a Tesla, agradeceu na rede social X com um “Danke schön”. Nas mesmas conversas, segundo a agência de notícias Reuters, os dois lados combinaram que o sistema poderá rodar até 10% acima do limite de velocidade, posição que a Alemanha vai levar a Bruxelas.
O apoio alemão pesa por causa do modo como a aprovação funciona na Europa. O sistema recebeu sinal verde primeiro nos Países Baixos, em abril, depois de 18 meses de testes da RDW, a agência holandesa que homologa veículos. Como as regras europeias ainda não preveem esse tipo de tecnologia, a autorização usou um mecanismo de exceção para inovações. Para valer nos 27 países, ela precisa passar por um comitê técnico ligado à Comissão Europeia, por maioria qualificada: ao menos 15 países que somem 65% da população do bloco. A Alemanha, sozinha, reúne quase um quinto dos habitantes da União Europeia.
Oito países já autorizaram o uso em seus territórios: Países Baixos, Lituânia, Estônia, Dinamarca, Bélgica, Eslovênia, República Tcheca e Croácia. Segundo a Reuters, a Eslováquia deve ser a próxima. Mas a votação europeia, prevista para outubro, foi adiada para dezembro, no mínimo. Suécia e França demonstraram preocupação com a possibilidade de o sistema ultrapassar os limites de velocidade, e alguns países pediram testes adicionais. Na Suécia, órgãos de defesa do consumidor pediram à agência de transportes que avaliasse se a publicidade da Tesla sugeria direção totalmente autônoma.
A Tesla apresenta o sistema como uma tecnologia capaz de salvar vidas. Em seu relatório de segurança, com dados da América do Norte, a empresa afirma que carros com o sistema ativo registram um acidente grave a cada 8 milhões de quilômetros rodados, o equivalente a 200 voltas ao redor da Terra. Pelo cálculo da Tesla, a média de todos os veículos dos Estados Unidos é de um a cada 1,06 milhão de quilômetros. Para a Europa, a empresa divulgou números próprios: em mais de 100 milhões de quilômetros rodados em cinco países, os carros com o sistema teriam se envolvido em 4,1 vezes menos colisões do que os Teslas dirigidos manualmente.
Esses números são contestados. Uma investigação da Reuters publicada em outubro ouviu sete pesquisadores de segurança viária. Para eles, os estudos da empresa não comprovam que o sistema reduz acidentes fatais. Em reportagem anterior, a agência apontou que a Tesla compara apenas os acidentes que acionam o airbag em seus carros com uma média americana que inclui batidas menos graves. A Reuters também relatou pressão da Tesla para que a RDW tornasse sua análise mais barata e menos extensa.
A agência holandesa afirma que não se baseou apenas nas informações da fabricante. Segundo a RDW, foram mais de 3 mil horas de testes próprios, e seus especialistas revisaram de forma independente a análise estatística da Tesla. Em junho, o órgão informou que cerca de 40 mil carros da marca já tinham rodado 24 milhões de quilômetros com o sistema nos Países Baixos, sem incidentes relevantes.
Nos Estados Unidos, o nome original continua. O sistema é vendido como Full Self-Driving (Supervised), por assinatura de US$ 99 por mês. Mas o debate também chegou lá. No fim do ano passado, o órgão que regula veículos na Califórnia concluiu que a Tesla usou de forma enganosa os termos “Autopilot” e “Full Self-Driving” na publicidade. Para evitar a suspensão das vendas no estado, a empresa deixou de usar “Autopilot” no marketing local e, em seguida, recorreu à Justiça contra a decisão. Na China, o sistema já aparece como condução assistida inteligente.
Por trás da discussão sobre o nome há uma distinção técnica. A escala de automação usada pela indústria vai do nível 0 ao 5. No nível 2, caso do sistema da Tesla, o motorista continua responsável pela condução. No nível 3, o carro assume a direção em situações específicas e o motorista pode tirar os olhos da via. A Mercedes-Benz foi pioneira nesse nível com o Drive Pilot, aprovado na Alemanha para rodovias, e assumia a responsabilidade quando o recurso estava ligado. No início deste ano, porém, a montadora decidiu não oferecê-lo na nova Classe S. A aposta passou a ser o MB.Drive Assist Pro, de nível 2, que funciona também na cidade e exige atenção permanente do motorista. É nessa mesma categoria de sistemas supervisionados que a Tesla busca a aprovação europeia.




