Ucrânia aposta em robôs terrestres para compensar desvantagem numérica frente à Rússia

20 de abril de 2026 5 minutos
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Dois soldados russos com as mãos erguidas avançam cautelosamente em direção a uma voz de comando. Não havia capturador humano à vista, apenas drones aéreos e um robô terrestre controlado remotamente por um operador posicionado a quilômetros da linha de frente. A cena, registrada por unidades da Terceira Brigada de Assalto Separada da Ucrânia, representa algo sem precedentes na história militar: a rendição de combatentes a sistemas inteiramente não tripulados.

Para Kiev, o episódio não é uma curiosidade tecnológica. É uma aposta estratégica.

A Ucrânia enfrenta um desequilíbrio de forças que dificilmente se resolverá pelo caminho convencional. A Rússia mantém uma superioridade numérica significativa em tropas, e o país sabe que não pode competir nesse terreno. A resposta tem sido transformar a escassez de pessoal em um motor de inovação militar. Em 2025, a indústria ucraniana entregou 15 mil veículos terrestres não tripulados a unidades de combate, sete vezes mais do que as 2 mil unidades enviadas ao front em 2024.

O salto quantitativo é expressivo, mas o salto qualitativo é o que mais preocupa analistas em Moscou. Em novembro de 2025, a BBC reportou que até 90% de todos os suprimentos enviados a posições ucranianas na região de Pokrovsk chegavam por meio de robôs terrestres. Nessa mesma frente, o Terceiro Corpo de Exército ucraniano afirmou que um único robô terrestre armado com metralhadora conseguiu conter um avanço russo por 45 dias consecutivos, necessitando apenas de manutenção leve e recarga de bateria a cada dois dias.

A aceleração no uso de sistemas robóticos ganhou força institucional com a nomeação de Mykhailo Fedorov como ministro da Defesa, em janeiro deste ano. Fedorov, que anteriormente dirigia o Ministério da Transformação Digital e supervisionou o programa ucraniano de guerra com drones, apresentou ao assumir o novo cargo aquilo que o ministério chamou de “plano de guerra”, um roteiro de como a Ucrânia pretende forçar a Rússia à paz.

Os números do plano são ambiciosos. O Ministério da Defesa pretende contratar 25 mil sistemas robóticos terrestres apenas no primeiro semestre de 2026, o que dobraria o total adquirido ao longo de todo o ano de 2025. A Agência de Compras de Defesa já assinou 19 contratos com fabricantes, totalizando 11 bilhões de hryvnias ucranianas. Fedorov foi taxativo ao definir a meta de longo prazo: que 100% da logística na linha de frente seja executada por sistemas robóticos.

Mais de 200 empresas ucranianas fabricam atualmente robôs terrestres, e em março deste ano as tropas conduziram mais de 9 mil missões envolvendo esse tipo de sistema. O ecossistema industrial que emergiu da guerra é, por si só, um ativo estratégico. Desde o início da invasão em larga escala, mais de 280 empresas ingressaram no setor, gerando mais de 550 soluções robóticas ativas, com 175 projetos apoiados por subsídios do programa estatal Brave1.

A narrativa ucraniana sobre robótica militar precisa ser lida com cautela. Especialistas reconhecem os avanços, mas alertam para os limites operacionais dos sistemas atuais. Robert Tollast, especialista em guerra terrestre do Royal United Services Institute, em Londres, avalia que os drones terrestres provavelmente terão dificuldades para manter território, comparando seu uso isolado ao emprego de tanques sem apoio de infantaria.

Há também obstáculos técnicos concretos. Operadores ucranianos relatam que um robô eficaz em um mês pode se tornar inútil no seguinte, devido a mudanças no sistema de guerra eletrônica russa. Armas pesadas montadas nos veículos dificultam a camuflagem, e baterias precisam ser trocadas manualmente.

O Estado-Maior ucraniano reporta que plataformas robóticas reduziram as baixas de pessoal em até 30%, uma métrica significativa, mas que só se sustenta se a escala e a manutenção forem mantidas ao longo do tempo.

O conflito produziu um laboratório sem paralelo para a guerra moderna, e países aliados e neutros estão atentos. Zelensky viajou pessoalmente à Arábia Saudita, ao Catar e aos Emirados Árabes Unidos, além de Turquia e Síria, oferecendo compartilhar a experiência ucraniana em contrapartida a apoio, especialmente mísseis para defesa antiaérea. Para os países do Golfo, que durante anos investiram somas expressivas em capacidades militares convencionais, a guerra ucraniana expôs uma vulnerabilidade incômoda: a assimetria de custo entre interceptores caros e drones baratos.

O Institute for the Study of War avaliou recentemente que a superioridade ucraniana em drones está contribuindo para a estagnação dos avanços russos e para contra-ataques pontuais de Kiev, embora nenhum dos lados tenha obtido vantagem decisiva.

A questão da inteligência artificial paira sobre tudo isso como a próxima fronteira e também como o maior dilema ético. O comandante Mykola Zinkevych, responsável pelos sistemas robóticos da Terceira Brigada, resume a ambivalência da linha de frente: ao mesmo tempo que vê processos sendo automatizados com resultados concretos, resiste à ideia de sistemas totalmente autônomos com poder de fogo. “A decisão final deve ser sempre tomada por um ser humano”, afirmou. “Como podemos ter certeza de que a IA será capaz de distinguir um amigo de um inimigo?”

 

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