
Ursula von der Leyen usou nesta segunda-feira a conferência anual de embaixadores da União Europeia para lançar uma das críticas mais diretas já feitas por um dirigente do bloco à própria arquitetura de governança europeia. A presidente da Comissão afirmou que a UE não pode mais depender do sistema baseado em regras como único mecanismo de defesa de seus interesses e colocou em xeque se as instituições do bloco, concebidas para um mundo de estabilidade pós-guerra, ainda servem à sua credibilidade geopolítica.
“A Europa não pode mais ser guardiã de uma velha ordem mundial, de um mundo que acabou e não voltará”, disse von der Leyen, segundo a Reuters. A declaração sinaliza uma inflexão no discurso oficial de Bruxelas, que durante décadas elegeu o multilateralismo e o direito internacional como pilares de sua política externa.
O diagnóstico encontra respaldo imediato nas tensões que paralisam o próprio funcionamento da UE. O exemplo mais recente está no empréstimo de €90 bilhões, acordado em dezembro de 2025 para financiar a Ucrânia em 2026 e 2027. A Hungria vetou tanto o empréstimo quanto o 20º pacote de sanções contra a Rússia, tornando-se o primeiro caso de duplo veto simultâneo nos mecanismos de financiamento à defesa europeia, expondo os limites da regra de unanimidade.
A chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas, falou na sequência e apontou a invasão russa da Ucrânia como o catalisador da erosão do direito internacional e do retorno da política de poder coercitiva. Juntas, as duas lideranças pintaram um quadro em que o mundo para o qual as instituições europeias foram desenhadas simplesmente não existe mais.
Von der Leyen questionou se o sistema construído pelo bloco, “com todas as suas bem-intencionadas tentativas de consenso e compromisso”, representa mais um auxílio ou um obstáculo para a credibilidade da UE como ator geopolítico. Alterar a regra de unanimidade na política externa exigiria reforma dos tratados, processo notoriamente lento e politicamente arriscado.
A presidente não propôs medidas concretas. Seu tom foi o de quem lança um diagnóstico e convoca uma reflexão urgente. A questão que permanece sem resposta é a mais difícil: se o sistema de consenso é um entrave, qual é a alternativa viável dentro de tratados que exigem unanimidade para ser reformados?






