
Com o programa “Brave Germany”, Berlim e Kiev pretendem desenvolver conjuntamente novas tecnologias de defesa, armas com inteligência artificial e sistemas de ataque profundo. O acordo foi assinado nesta segunda-feira (11) em Kiev pelos ministros da Defesa Boris Pistorius, da Alemanha, e Mykhailo Fedorov, da Ucrânia, em uma visita não anunciada previamente por razões de segurança.
Fedorov afirmou que a Alemanha é hoje o maior parceiro da Ucrânia em volume de assistência à segurança, respondendo por cerca de um terço de toda a ajuda recebida pelo país. A cooperação, que vinha se aprofundando nos bastidores, ganhou uma nova dimensão operacional com os anúncios desta semana.
Em abril, após uma visita a Berlim, Fedorov havia anunciado via Telegram um pacote de defesa de €4 bilhões, que inclui financiamento para centenas de mísseis Patriot e 36 lançadores IRIS-T, além de €300 milhões em investimentos em capacidades de ataque profundo. O pacote prevê ainda a produção conjunta de drones de ataque de médio alcance com IA, com um lote inicial de 5.000 unidades destinado às forças armadas ucranianas.
Os sistemas planejados abrangem desde drones táticos com alcance abaixo de 100 km até plataformas de longo alcance capazes de atingir alvos a até 1.500 km. Pistorius destacou que o desenvolvimento em larga escala desse tipo de drone é considerado crítico para a capacidade ucraniana de suprimir e destruir sistemas de defesa antiaérea russos.
Por trás da iniciativa, há um problema estrutural que Berlim enfrenta há anos. Apesar do esforço massivo de modernização das Forças Armadas alemãs, a Bundeswehr, como são chamadas as forças armadas da Alemanha, ainda carece de capacidade de ataque profundo. Atualmente, o único sistema disponível nessa categoria é o míssil de cruzeiro Taurus, com alcance superior a 500 km, considerado a faixa mais baixa dessa categoria.
O chefe do Exército alemão, Christian Freuding, reconheceu publicamente “lacunas significativas” em defesa antiaérea, artilharia, sistemas contra drones e guerra eletrônica. O cenário se complicou depois que a administração Trump sinalizou uma redução de tropas americanas na Europa e colocou em dúvida o plano, originalmente acordado entre Olaf Scholz e Joe Biden, de estacionar mísseis Tomahawk em solo alemão.
Segundo o Financial Times, Pistorius planeja uma viagem a Washington para tentar convencer a administração Trump a vender os Tomahawk e os sistemas de lançamento Typhon associados. A visita depende de o ministro conseguir agendar um encontro com o secretário de Defesa Pete Hegseth e, após as tensões geradas pelos comentários do chanceler Friedrich Merz sobre a guerra no Irã, isso está longe de ser certo.
O que está em jogo
O orçamento de defesa alemão deve alcançar cerca de €108 bilhões em 2026, com previsão de €144,9 bilhões em 2027, o equivalente a 3,1% do PIB. Para a Ucrânia, as projeções para 2027 incluem €11,6 bilhões alocados no orçamento federal alemão, com cerca de €8,5 bilhões anuais previstos entre 2028 e 2030.
O programa será implementado por meio do Brave1, o cluster governamental ucraniano de tecnologia de defesa que apoia o desenvolvimento e os testes de inovações militares. Os dois países acordaram em lançar a primeira fase de competição do programa até o fim de 2026.




