
Fundada em 1866, a Nestlé chega aos 160 anos revendo a receita que sustenta seu negócio há mais de um século: vender volume de alimentos industrializados. O motivo é a popularização dos medicamentos GLP-1, que reduzem o apetite de milhões de pessoas e ameaçam justamente esse pilar.
Em entrevista recente à Reuters, o diretor de tecnologia da companhia, Stefan Palzer, revelou como a empresa suíça pretende lidar com a mudança. A Nestlé criou a Food Genie, uma plataforma de inteligência artificial que cruza uma base de aproximadamente 120 mil formulações da companhia para simular, antes de qualquer lançamento, como uma receita nova vai se sair no mercado. “Estamos bem posicionados com o portfólio. É uma grande oportunidade para nossa empresa”, disse Palzer.
A aposta já aparece em produto concreto. A Vital Proteins, marca de colágeno do grupo, está sendo reformulada para atacar um efeito colateral específico da perda rápida de peso, a flacidez facial que passou a ser chamada de “cara de Ozempic”. A empresa também usa modelos de IA para simular a reação do consumidor a novas alegações nutricionais antes de testá-las em prateleira, e monitora redes sociais para distinguir uma tendência sólida de um modismo passageiro.
O momento do anúncio chama atenção. A Zona Europa, como a Nestlé chama a região em seus balanços, é a área onde a companhia nasceu e ainda mantém sua sede, em Vevey. Foi a que mais cresceu entre as três zonas geográficas da empresa em 2025, com alta orgânica de 4,3%. No primeiro semestre de 2026, porém, essa taxa caiu para 2,7%, atrás da Ásia, Oceania e África e das Américas, com a empresa apontando maior concorrência nos principais mercados do continente. A Nestlé revela sua nova frente de produtos justamente quando a própria casa, com mais de um século de história, mostra sinais de fôlego mais curto.
Na Europa, a adoção dos medicamentos GLP-1 ainda é bem mais lenta do que a americana, o que muda o tamanho do desafio. Segundo a analista Nandini Roy Choudhury, da consultoria Future Market Insights, os sistemas de saúde europeus, majoritariamente públicos, avaliam qualquer novo medicamento por um critério rígido de custo-benefício, o que deixa os governos cautelosos com o impacto orçamentário de tratar populações inteiras. Na Alemanha, por exemplo, a cobertura pelo sistema público segue restrita a casos de risco cardiovascular grave.
Ainda assim, a tendência já se sente no prato europeu. Segundo Carl Quash III, responsável por snacks e nutrição na consultoria Euromonitor, menos consumidores no continente vêm tentando emagrecer por conta própria do que antes, movimento que pode estar ligado à presença cada vez maior desses remédios.




