
Cem incidentes híbridos foram atribuídos oficialmente à Rússia na Europa entre janeiro e agosto, contra 60 no mesmo período do ano passado. O dado é do Sahaidachnyi Security Center, centro de estudos com sede na Ucrânia, e foi citado pelo Politico Europe, que pertence à alemã Axel Springer SE, uma das maiores editoras digitais da Europa. O número equivale, em média, a um caso a cada dois dias e meio. Um alto funcionário da Otan disse ao veículo que o total real passa de 200, sem contar ciberataques. Nos últimos dias, líderes europeus passaram a falar em público sobre a preparação para um conflito mais amplo. Governos reforçam a preparação da população, da infraestrutura e das Forças Armadas. A Otan, porém, diz não ver ameaça iminente de ataque.
Na França, Emmanuel Macron reuniu os chefes dos partidos com os responsáveis pela inteligência e determinou reforço da proteção de infraestruturas críticas contra ciberataques e drones, segundo o Palácio do Eliseu. Na Alemanha, hospitais se preparam para um cenário de vítimas em massa, segundo a Bloomberg. O premiê polonês, Donald Tusk, disse que a Rússia pode lançar drones ou mísseis contra países que apoiam Kiev nos próximos meses e apresentá-los como acidentes. A Polônia tem acionado caças e colocado sistemas de defesa aérea em prontidão durante ataques russos à Ucrânia, e em uma das operações o Exército informou que não houve violação do espaço aéreo. O Reino Unido prepara uma campanha de orientação à população que cobre de eventos climáticos a ciberataques e inclui o cenário de guerra.
Reservas e orientações à população
A estratégia de preparação da Comissão Europeia prevê diretrizes para 72 horas de autossuficiência e a inclusão do tema nos currículos escolares. Os itens sugeridos incluem comida, água, lanterna, rádio, carregador portátil, dinheiro em espécie e medicamentos. Os Países Baixos enviaram um manual de 72 horas a 8,5 milhões de domicílios. A Finlândia orienta reservas para três dias, e o guia alemão recomenda alimentos para 10 dias. A adesão é desigual: levantamento holandês divulgado neste ano indica que mais da metade dos moradores ainda não tem kit de emergência em casa.
A Suécia já é conhecida pelo planejamento. O país elabora cartilhas para a população desde 1943, em plena Segunda Guerra, quando o folheto “Se a guerra chegar” foi enviado pela primeira vez a todos os domicílios. O material circulou até 1991 e voltou em 2018. A edição de 2024, enviada a 5,2 milhões de domicílios, dá mais peso ao cenário de guerra, traz alertas sobre desinformação e ataques digitais e inclui uma seção sobre a resposta da Otan. O guia recomenda estoques para ao menos uma semana.
Agora, o governo propôs cerca de 12 bilhões de coroas suecas para a defesa civil entre 2026 e 2028, para estoques de produtos de saúde, reforma de abrigos, reservas de alimentos e preparação de municípios e regiões. Segundo o ministro da Defesa Civil, Carl-Oskar Bohlin, o país compra estoques de grãos, ampliou reservas de medicamentos e de insumos para purificação de água, reforça poços de emergência e cria hospitais de campanha. A Suécia tem cerca de 64 mil abrigos, com espaço para cerca de 7 milhões de pessoas, e reintroduziu o serviço militar obrigatório em 2017. No início do ano, o país e outros nórdicos e bálticos, a Polônia e a Alemanha assinaram um memorando para cooperar na proteção de civis, incluindo o planejamento conjunto de evacuações por fronteiras terrestres.
A Finlândia mantém cerca de 50 mil abrigos, com espaço para 85% da população. A Alemanha tem menos de 600 bunkers em funcionamento, que cobrem cerca de 0,5% dos habitantes, e anunciou um plano de até 30 bilhões de euros para criar vagas para 1 milhão de pessoas até 2030. A Polônia passou a exigir, desde o início do ano, que novos prédios residenciais prevejam abrigos. A Euronews observa que as redes da Guerra Fria se deterioraram em vários países e que a UE tem poder direto limitado sobre o tema, que cabe aos governos nacionais.
No início de setembro, Dinamarca, Finlândia, Islândia, Noruega e Suécia assinaram uma declaração conjunta para manter o fluxo de bens e serviços essenciais em crises e em guerra. Um acordo nórdico formal ainda será negociado. A Otan divulgou requisitos de resiliência nacional para energia, alimentos, água, saúde e comunicações.
Nas Forças Armadas, os aliados se comprometeram a investir 5% do PIB em defesa até 2035, com até 1,5% em infraestrutura crítica, ciberdefesa e preparação civil. Europeus e Canadá aumentaram os gastos em quase 20%, em termos reais, em 2025, segundo a Otan. O serviço militar obrigatório existe em dez países da UE.
Por que os alertas surgem agora
O tema não é novo. Em 2025, a Comissão Europeia apresentou uma estratégia abrangente de estoques do bloco, com uma rede entre os países e reservas no nível da UE, assunto que o Europa Brasil já abordou. O que mudou foi o ritmo dos incidentes atribuídos à Rússia, entre eles ciberataques, sabotagem, incêndios e drones.
No Parlamento Europeu, a presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, disse que as ameaças crescem em solo europeu e propôs um protocolo de segurança de emergência que qualquer país do bloco poderia acionar, além de um Conselho de Segurança Europeu com Reino Unido, Noruega, Ucrânia e Canadá. No mesmo dia, os eurodeputados aprovaram, por 470 votos a 129, uma resolução segundo a qual ações híbridas podem ser uma forma de guerra mesmo sem força convencional. Sobre os Estados Unidos, Donald Trump disse haver avanços para uma base permanente do Exército na Polônia, enquanto o Pentágono, segundo relatos, avalia retirar dezenas de milhares de militares de outros pontos da Europa. A análise da CNN avalia que o compromisso de Trump com a cláusula de defesa mútua é incerto.
O que dizem os jornais europeus
Alguns temas aparecem com mais frequência, como a sequência de incidentes, a preparação da população e a distância entre o tom de alguns líderes e a avaliação da Otan. A Reuters vê nas propostas de von der Leyen o desejo europeu de assumir mais responsabilidade pela segurança do continente, em meio a dúvidas sobre poder contar com os Estados Unidos. No Reino Unido, a BBC discute se a sociedade está psicologicamente preparada. O acadêmico Andrew Michta, ouvido pela emissora, diz que as elites da Europa Ocidental não descrevem com franqueza a gravidade do quadro.




