
Pela primeira vez desde que o Reino Unido criou os parlamentos regionais da Escócia, do País de Gales e da Irlanda do Norte, partidos favoráveis à independência comandam as três administrações ao mesmo tempo. Essa coincidência levou os líderes do SNP, do Plaid Cymru e do Sinn Féin a Cardiff, onde assinaram um memorando de entendimento que reivindica o direito de cada nação decidir seu futuro em referendo, sem interferência de Londres.
O texto trata de quatro frentes: economia, energia, relação com a União Europeia e autodeterminação. Os líderes assinaram como dirigentes partidários, não como chefes dos governos regionais que comandam. Ou seja, o acordo não vincula formalmente os três governos, apenas os partidos que os lideram.
O encontro ganhou urgência depois que o premiê britânico Andy Burnham disse a parlamentares que aceitaria um novo referendo escocês caso houvesse consenso claro pela independência e, dias depois, recuou, afirmando não haver apoio majoritário da opinião pública para uma nova consulta. O episódio irritou os partidos nacionalistas, que classificaram o momento como decisivo para a causa da independência.
A articulação de Cardiff ainda ganhou um capítulo à parte no fim de semana anterior à assinatura, quando o presidente americano Donald Trump, em visita a Dublin, disse que adoraria ver a Irlanda unificada e que isso vai acontecer mais cedo ou mais tarde. A fala rompeu a tradição de neutralidade da Casa Branca sobre o tema e irritou os unionistas da Irlanda do Norte. Gavin Robinson, líder do DUP, respondeu que o futuro constitucional da região será decidido pelo próprio povo norte-irlandês, não por comentários vindos de Londres, Dublin ou Washington. Downing Street manteve a posição de que um referendo segue fora de cogitação.
Os caminhos institucionais para uma eventual independência divergem bastante entre as três nações. A Irlanda do Norte tem, no Acordo de Sexta-Feira Santa, um mecanismo para convocar um plebiscito sobre unificação com a República da Irlanda, caso o governo britânico avalie haver maioria favorável. A Escócia não dispõe do mesmo instrumento legal, o que já dificultou a tentativa do SNP de repetir o referendo de 2014. Já o Plaid Cymru tem cobrado de Burnham menos um referendo imediato e mais a transferência de poderes sobre segurança, justiça e receitas da Coroa, tratamento que o novo premiê galês associa a reconhecer o País de Gales como nação, e não como região.
Burnham assumiu o cargo há cerca de dois meses, o sétimo premiê britânico em uma década de instabilidade política desde o referendo do Brexit, em 2016. Essa sucessão alimenta o argumento central das três lideranças regionais, de que o modelo político do Reino Unido deixou de funcionar para seus cidadãos.
A repercussão internacional também destacou outro dado das eleições regionais de maio: o avanço do Reform UK, partido de direita liderado nacionalmente por Nigel Farage. No País de Gales, a legenda saltou de zero para 34 das 96 cadeiras do Senedd, atrás apenas do Plaid Cymru. Na Escócia, o Reform empatou com os trabalhistas em segundo lugar, com 17 assentos cada, enquanto o SNP, apesar de vencer a eleição, perdeu seis cadeiras frente a 2021. O mapa político britânico hoje se mexe em duas direções ao mesmo tempo: a pressão das nações por autodeterminação e o crescimento de correntes de direita com força própria nas três regiões.
Há ainda a camada europeia do debate, que interessa de perto ao continente. Escócia e País de Gales defendem adesão à União Europeia como Estados independentes. O Sinn Féin projeta a entrada da Irlanda do Norte no bloco pela via da reunificação com a República da Irlanda, hoje membro pleno.




