
Quarta edição do evento reuniu em São Paulo economistas, diplomatas e executivos para discutir os primeiros meses do tratado e os desafios do Brasil no mercado europeu
O acordo entre Mercosul e União Europeia já produz resultados, mas a abertura comercial, por si só, não garante competitividade às empresas brasileiras. Essa foi a mensagem central do European Day 2026, realizado na manhã de quinta-feira (5), no Hotel Renaissance, em São Paulo. Promovido pela plataforma Europa Brasil, do IC Next Group, com apoio da Brazil-EU Business Network, o encontro chegou à quarta edição.
Assinado em janeiro e em aplicação provisória desde maio, o tratado cria um mercado de cerca de 720 milhões de pessoas, com PIB combinado superior a US$ 22 trilhões, segundo o MDIC. Nos primeiros meses de vigência, as exportações brasileiras para o bloco cresceram mais de 20% em relação ao mesmo período de 2025.
Produtividade em xeque
Na abertura, o economista Fabio Giambiagi, do BNDES, alertou que a retomada recente do crescimento não veio acompanhada de ganhos de produtividade. Entre 2020 e 2025, o PIB avançou em média 3,34% ao ano e o emprego, 3,62%, enquanto a produtividade por pessoa ocupada recuou 0,27% ao ano. Como a população em idade de trabalhar deve começar a diminuir nas décadas de 2030 ou 2040, praticamente todo o crescimento futuro terá de vir da produtividade.
O economista avaliou o país em dez dimensões do desenvolvimento e apontou deficiências em oito, com desempenho intermediário apenas em equilíbrio macroeconômico e regulação. O investimento foi de 16,8% do PIB em 2025, e a poupança doméstica, de 14,4%. A necessidade de financiamento do setor público chegou a 8,5% do PIB, em média, entre 2023 e 2026, puxada por juros de 7,6% do PIB. “Precisamos de uma restrição global que seja efetivamente uma restrição e que não admita exceções”, defendeu.
Cultura exportadora
No primeiro painel, Fernanda Cimini Salles, senior fellow do CEBRI e professora da UFMG, observou que o tamanho do mercado interno ajuda a explicar a baixa vocação exportadora das empresas brasileiras. Ela recomendou analisar os ganhos do acordo produto a produto, já que parte do aumento das vendas ocorre em itens que já tinham isenção ou decorre de preços, e citou óleos essenciais e cafés especiais como oportunidades. Energia limpa, digitalização, mobilidade urbana, defesa e aviação aparecem como áreas promissoras para parcerias.
Katrin Dalibor, diretora sênior do Grupo Lufthansa para a América do Sul, relatou que a companhia cresce no Brasil acima da média do mercado, mas apontou a judicialização do setor e as mudanças tributárias como preocupações.
Acordo é ferramenta
No segundo painel, Marcia Nejaim Galvão de Almeida, diretora de Negócios da ApexBrasil, lembrou que a União Europeia, vista como um único país, é a principal investidora no Brasil, e que o Brasil soma R$ 168 bilhões investidos no bloco. “Não é apenas agro, estamos falando de indústria e tecnologia”, disse. Sergio Quiroga, presidente da Eurocâmaras, afirmou que o interesse europeu pelo país segue sólido, mas cobrou execução: “O acordo é uma ferramenta”. O embaixador Fernando de Mello Barreto, conselheiro do Felsberg Advogados, alertou para as exigências ambientais, trabalhistas e de rastreabilidade, e para o risco de o desmatamento reativar resistências em países como a França.
Marca Brasil
O terceiro painel tratou da imagem do país. Artur Capuani, jornalista da Euronews e correspondente da GloboNews em Bruxelas, apontou que a presença de empresas brasileiras na imprensa europeia se concentra em poucos nomes, como a Petrobras. Greta Drumstaitė apresentou a Brazil-EU Business Network, que reúne empresas como Suzano, Vale e Braskem e foi lançada em Bruxelas com cerca de 200 participantes. Fátima Gerolin, da Suzano, defendeu que as empresas brasileiras deixem de ser vistas como meras fornecedoras de matérias-primas. Segundo ela, um em cada quatro produtos de tissue consumidos na Europa usa celulose da companhia.
Adaptação permanente
No painel de encerramento, o advogado Bruno Galvão, do escritório alemão Blomstein, recomendou mapear fornecedores e compradores para medir a exposição às regras europeias. “Na Europa não tem regra que não cola, mas tem regra que muda”, resumiu. Marcelo Gazola, head de Vendas da Suzano para a Europa, destacou que o continente exige abordagens distintas para cada país. Guilherme Gomes, da WEG, que mantém nove fábricas em seis países europeus, chamou o mercado de “grande escola” e defendeu presença ativa onde as regras são definidas: “Não adianta você chegar depois que tudo já é definido”.




