
As exportações brasileiras para a União Europeia cresceram 30,6% entre maio e setembro, na comparação com o mesmo período do ano passado, e somaram US$ 27,2 bilhões, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). O período coincide com os cinco primeiros meses de aplicação provisória do acordo comercial entre o Mercosul e o bloco europeu, negociado ao longo de quase 27 anos.
O ritmo ganhou força mês a mês: as vendas à Europa subiram 46,4% em agosto e 60,1% em setembro. Para o chanceler Mauro Vieira, o acordo responde pela expansão de 30% desde maio, e o comércio entre os dois blocos já cresceu mais de US$ 6 bilhões no período. O ministro do Desenvolvimento, Márcio Elias Rosa, afirma que o avanço não se limita ao agronegócio.
Oportunidades além das commodities
É nos produtos que pagavam imposto para entrar na Europa que a redução tarifária aparece de forma mais direta. A Cooperativa Grande Sertão, de Minas Gerais, acaba de entregar três toneladas de óleo de pequi a um parceiro comercial na França. Rico em vitamina A, o óleo é usado na alimentação e pela indústria de cosméticos.
“Não é uma commodity. E quando tem esse benefício fiscal e tributário, com certeza a gente vai conseguir entregar ele com preço mais competitivo”, diz José Fábio Soares, da cooperativa. Ele espera ampliar os volumes e gerar renda para famílias que vivem do extrativismo sustentável no Cerrado. “É a realização de um sonho”, resume.
A ApexBrasil, agência federal de promoção de exportações, vê espaço para cooperativas e pequenos negócios. O gerente de Agronegócios da agência, Pedro Neto, cita uma cooperativa de pequenos apicultores do semiárido que passou a vender mel para a Alemanha. “Estamos concorrendo numa igualdade de condições”, afirma.
Os dados da ApexBrasil reforçam esse movimento. De maio a julho, os três primeiros meses do acordo, cerca de 5 mil produtos que passaram a ter tarifa zero tiveram alta de 47% nas vendas à Europa, enquanto os itens sem mudança tarifária avançaram 10%. Entre os destaques estão partes de turborreatores (91%), óleo essencial de laranja (88%) e aviões com mais de 15 toneladas (31%); a agência também identificou alta em produtos químicos, siderúrgicos e máquinas.
Analistas lembram que outros fatores também influenciam o resultado. Segundo o Icomex, indicador de comércio exterior da Fundação Getulio Vargas (FGV), o petróleo respondeu por 34,1% das vendas do Brasil à Europa em setembro — cerca de um em cada três dólares —, com alta de 139% em valor. Minério de cobre e farelo de soja também cresceram.
Para a FGV, o avanço do petróleo está ligado às restrições europeias às compras da Rússia e ao conflito no Irã, que levaram refinarias do continente a buscar novos fornecedores. O instituto avalia que ainda não é possível atribuir o resultado ao tratado. Estudo do Centro Internacional de Negócios da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) estima que cerca de 73,4% das exportações brasileiras à UE em 2025 — incluindo petróleo, café, minérios e soja — já entravam no bloco sem tarifa.
No governo, a leitura é de que o efeito tende a aumentar. O diretor de Estatísticas e Estudos de Comércio Exterior do MDIC, Herlon Brandão, afirmou que o impacto do acordo provavelmente cresce ao longo dos meses, embora o período ainda seja curto para medi-lo com precisão.
O comércio de proteínas animais segue em negociação. Desde 3 de setembro, a União Europeia suspendeu a entrada de carne bovina, suína, de frango, mel, pescados e ovos do Brasil, após avaliar que o país não apresentou garantias suficientes sobre o controle do uso de antimicrobianos na pecuária. O governo brasileiro contesta a avaliação.
Em outubro, depois de uma auditoria com resultados considerados positivos, a Comissão Europeia, braço executivo do bloco, confirmou que pretende propor a reinclusão do Brasil na lista de países autorizados a exportar frango e mel. A proposta será votada pelos países da UE em novembro; a retomada efetiva dos embarques, caso aprovada, pode ocorrer em dezembro.
Para a carne bovina, a Comissão afirma que ainda faltam garantias sobre a certificação do produto ao longo de todo o ciclo de vida do animal e não pretende, por enquanto, propor a retomada.
Expectativa dos dois lados do Atlântico
Do lado europeu, a expectativa também é de ganhos. A Comissão Europeia projeta que, até 2040, o acordo eleve em até 39% as exportações anuais do bloco para o Mercosul, o equivalente a cerca de € 50 bilhões, e sustente até 600 mil empregos na Europa. Carros, máquinas, medicamentos, vinhos e chocolates estão entre os principais beneficiados, já que enfrentavam tarifas de até 35% no Mercosul, que agora caem de forma gradual.
Por enquanto, a balança pende para o Brasil. De janeiro a setembro, o país passou de um déficit de US$ 1 bilhão com o bloco, em 2025, para um superávit de US$ 6,1 bilhões, segundo a FGV.
O acordo é aplicado de forma provisória enquanto o Tribunal de Justiça da União Europeia, a mais alta corte do bloco, com sede em Luxemburgo, analisa a compatibilidade do texto com os tratados europeus, a pedido do Parlamento Europeu. Depois do parecer, caberá aos eurodeputados, eleitos diretamente pelos cidadãos dos 27 países, dar o aval final.




