
Eni e TotalEnergies decidiram desenvolver o campo Cronos, ao sul de Chipre, e o combustível deve chegar aos consumidores europeus em março de 2028. A informação é do ministro da Energia cipriota, Michael Damianos, à Associated Press. Será a primeira vez que gás do Mediterrâneo Oriental segue para o mercado europeu.
O consórcio pretende iniciar ainda este ano a construção de um gasoduto de 105 quilômetros ligando Cronos à infraestrutura do campo Zohr, no Egito. A obra deve levar até 18 meses. De lá, o gás vai para a planta de Damietta, onde será liquefeito e embarcado. O custo estimado é de US$ 2 bilhões, e a rota foi escolhida por aproveitar instalações que já existem. O traçado também contorna um problema antigo: o gasoduto EastMed, que levaria o gás direto para a Grécia, perdeu o apoio americano em 2022 e nunca saiu do papel, entre outros motivos porque a Turquia não reconhece a delimitação da zona econômica exclusiva de Chipre.
O projeto nasceu da corrida europeia por novos fornecedores depois da invasão da Ucrânia. Chega, porém, a um mercado que já terá se reorganizado sem ele. A regulação aprovada pelo Conselho da UE em janeiro proíbe integralmente as importações de GNL russo a partir do início de 2027 e as de gás por gasoduto a partir do outono europeu do mesmo ano. As compras de gás russo pelo bloco caíram de mais de 150 bilhões de metros cúbicos em 2021 para 36 bilhões em 2025, cerca de 12% do total importado, com Noruega e Estados Unidos ocupando o espaço deixado.
A oferta global também muda. Projeções da Bloomberg e da consultoria ICIS indicam que a nova capacidade de liquefação, puxada por Estados Unidos e Catar, supera com folga o crescimento da demanda, com reflexo nos preços entre 2028 e 2030. Análise do Oxford Institute for Energy Studies publicada em fevereiro chega a conclusão parecida para 2026 e 2027, com utilização das plantas caindo à medida que a onda de oferta chega ao mercado. Cronos entra em produção nesse ambiente, e não no de escassez que motivou a decisão de investimento.
Egito virou importador de gás
O ponto mais frágil da rota é o país por onde ela passa. A produção egípcia caiu de quase 59 bilhões de metros cúbicos em 2023 para 42 bilhões em 2025, uma queda de 29% em dois anos, e as importações de gás subiram 36% no primeiro trimestre de 2026. A S&P Global projeta importações de 11,14 milhões de toneladas de GNL pelo Egito em 2026, alta de 26,3% sobre 2025.
É nesse contexto que se lê a cláusula que permite destinar um quinto da produção de Cronos ao consumo egípcio. A Damietta tem capacidade ociosa justamente porque falta gás para liquefazer, o que barateia a rota e, ao mesmo tempo, coloca a Europa na fila com a demanda interna do Egito.




