Guerra no Irã pressiona UE a retomar debate sobre teto do gás

12 de março de 2026 3 minutos
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A União Europeia estuda medidas para conter os preços da energia, incluindo um possível teto para o preço do gás, instrumento controverso que o bloco já experimentou em 2022 e que voltou à pauta depois que os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã sacudiram os mercados globais de energia.

Desde o início do conflito, os preços do gás subiram 50% e os do petróleo, 27%, o que representa, em apenas dez dias de guerra, um custo adicional superior a 3 mil milhões de euros em importações de combustíveis fósseis para os contribuintes europeus. Foi com esse dado que a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, abriu seu discurso ao Parlamento Europeu em Estrasburgo na quarta-feira (11), onde anunciou que a Comissão prepara opções que incluem maior uso de contratos de compra de energia de longo prazo, medidas de auxílio estatal e a possibilidade de subsidiar ou fixar um teto para o preço do gás.

O problema estrutural por trás da crise é conhecido. O sistema elétrico europeu foi desenhado para que a última usina necessária para cobrir a demanda total determine o preço para todos os produtores. Essa usina costuma ser a gás, o que significa que picos no seu preço se transmitem automaticamente à eletricidade, mesmo quando a maior parte da energia gerada vem de fontes mais baratas, como nuclear ou eólica.

A ideia de um teto carrega um histórico delicado dentro do bloco. O mecanismo criado após a invasão da Ucrânia foi calibrado para ser acionado apenas se os preços atingissem 180 euros por megawatt-hora, nunca chegou a ser usado e expirou no ano passado. Alemanha e Países Baixos resistiram à medida na época, argumentando que um teto artificial prejudicaria a capacidade europeia de competir com compradores asiáticos por cargas de gás natural liquefeito. O mesmo risco se apresenta agora: alguns navios-tanque com destino à Europa já desviaram para a Ásia desde o início do conflito, e a Europa iniciou 2026 com estoques de gás em 46 mil milhões de metros cúbicos, contra 60 bcm em 2025 e 77 bcm em 2024.

O conflito também abriu uma fissura política dentro do bloco. Viktor Orbán pediu à Comissão o levantamento das sanções energéticas sobre a Rússia. Moscou, percebendo a oportunidade, sinalizou que pode antecipar o corte de fornecimento de combustíveis à Europa, redirecionando volumes para mercados considerados mais promissores. Von der Leyen foi categórica: retornar ao gás e ao petróleo russos seria “um erro estratégico” que tornaria a Europa mais vulnerável, posição coerente com o roteiro da Comissão que prevê o fim de todas as importações de gás russo até 2027.

Analistas apontam que o choque atual ainda é uma fração dos picos de 2022, quando o brent ultrapassou os 120 dólares por barril e a inflação na zona do euro bateu 9%. Mas a pressão política é real: indústrias eletrointensivas em toda a Europa já vinham alertando que os custos de energia as colocam em desvantagem frente a concorrentes americanos e chineses, mesmo antes da guerra. O choque atual agrava um problema preexistente e coloca Bruxelas diante de uma equação difícil: oferecer alívio imediato sem comprometer a estratégia de longo prazo.

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