
Os islandeses decidiram não reabrir as negociações de adesão à União Europeia. O resultado do referendo de sábado (29), com 52,8% dos votos contra a proposta e 47,2% a favor, aproxima ainda mais o país de outro vizinho nórdico que também ficou fora do bloco: a Noruega, que rejeitou a adesão duas vezes, em 1972 e em 1994, e desde então mantém acesso ao mercado único por meio do Espaço Econômico Europeu e de acordos bilaterais.
O resultado escondia uma divisão geográfica marcante. Das seis circunscrições eleitorais do país, só as duas do centro de Reykjavik tiveram maioria a favor da retomada das negociações. No restante da capital e nas áreas rurais, o “não” venceu com folga, um padrão parecido com o que se viu no referendo do Brexit, quando grandes centros urbanos e o interior do Reino Unido votaram em direções opostas.
Assim como na Noruega, o setor pesqueiro pesou na decisão islandesa. Parte dos eleitores temia que a adesão trouxesse a Política Comum de Pesca da UE para as águas do país, hoje geridas de forma autônoma. A pesca é a maior fonte de exportações da Islândia, que tem cerca de 400 mil habitantes, número parecido com o de Anápolis, em Goiás, no Censo de 2022.
A premiê Kristrun Frostadottir chamou o resultado de “vitória da democracia” e disse que vai respeitar a decisão das urnas. Segundo ela, a votação deixou uma lição: “as pessoas estão satisfeitas com o acordo do Espaço Econômico Europeu”. Frostadottir informou à emissora pública RUV que vai telefonar ao premiê da Noruega, Jonas Gahr Store, para tratar da cooperação entre os dois países fora do bloco.
Ao rejeitar a reabertura das negociações, a Islândia mantém intacta a relação que já tinha com o bloco antes do referendo. O país segue no Espaço Econômico Europeu, no Espaço Schengen e em programas europeus como o Erasmus, o Horizonte Europa e o sistema de comércio de emissões, segundo a Euronews. Ficam também fora da mesa a Política Comum de Pesca da UE e a obrigação de contribuir com recursos líquidos para o orçamento comunitário, já que a Islândia entraria como um dos poucos países a pagar mais do que receber do bloco.
Por outro lado, o país segue de fora das decisões que moldam boa parte das regras que já aplica. Como integrante do Espaço Econômico Europeu, a Islândia incorpora grande parte da legislação do mercado único sem ter assento na Comissão Europeia, no Parlamento Europeu ou no Conselho, os órgãos que definem essas regras. A entrada no bloco também abriria caminho para a adoção do euro, hoje fora de cogitação, numa tentativa de conter a inflação e reduzir a volatilidade da coroa islandesa. Para Bruxelas, a rejeição fecha, por ora, uma janela rara: segundo a CNN, a União Europeia estava disposta a negociar concessões para facilitar a entrada de um novo membro rico, algo que dificilmente se repete tão cedo.
Fora dos países nórdicos, o “não” islandês também repercutiu. Segundo a Euronews, o resultado foi comemorado por lideranças de direita no Reino Unido e na França. Já a Comissão Europeia disse respeitar a escolha dos islandeses e reforçou que o país segue como parceiro próximo do bloco.
A chanceler Thorgerdur Gunnarsdottir afirmou à Reuters nesta segunda-feira (31) que a Islândia vai ampliar acordos bilaterais de segurança, citando os já existentes com Finlândia e Noruega, além de Japão e Canadá. A escolha segue um caminho parecido ao da própria Noruega, que neste ano ampliou parcerias bilaterais de defesa e segurança com o Canadá e outros países, fora de qualquer estrutura coletiva europeia além da Otan.
O resultado deve manter a discussão sobre a adesão à União Europeia fora da agenda islandesa até pelo menos 2028, quando termina o mandato do governo atual.




